domingo, 27 de janeiro de 2019

Em tributo à Cláudia Celeste

Dia 29 de janeiro é sabidamente o Dia Nacional de Visibilidade de Travestis e Transexuais. Este ano eu quero render a minha homenagem a todas as pessoas travestis e transexuais, de ambos os sexos, por meio da memória e do legado da multi-artista Cláuda Celeste.
S/ ref.

Jamais imaginei que viéssemos a perdê-la tão cedo. Sempre muito dinâmica e de muitos talentos (atriz, dançarina, cantora, compositora, autora teatral, produtora...), Cláudia esbanjava viço e criatividade. Talvez por isso eu não tivesse priorizado colher em vídeo as suas memórias. Seu falecimento, em maio do ano passado, me pegou de surpresa.

É impossível esquecer a exuberância de seu talento, o seu sentido de cuidado para com o outro, o respeito e admiração pelas colegas de profissão.

Foi através dela que pude me reaproximar do universo das artes transformistas, que eu já conhecia (pelas reportagens no Lampião da Esquina, e pelas atuações de Georgia Bengston, Fujika de Holiday, Nórika Hayner, Tania Letieri, Cristina Cher e outras de seu elenco, que tive o prazer de assistir, no teatro do Sesc de Sao João de Meriti, em 1982) e cuja importância já vinha destacando em meus trabalhos acadêmicos, desde o bacharelado em história.  Sou imensamente grata por isso. E pelo privilégio de tê-la conhecido e podido assistir a algumas de suas apresentações, como a interpretação da cantora Marlene, para mim um dos seus momentos mais marcantes. (Ver o vídeo com a sua apresentação, ao final.)

Num evento em comemoração a esse dia, promovido pela Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual, da Prefeitura do Rio de Janeiro (CEDS-Rio), gestão Carlos Tufvesson, Cláudia me abordou. Penso que tenha sido em 2011 ou 2012, pois eu ainda estava às voltas com o meu doutoramento, cuja defesa se deu em fins de 2012. 

Queria que eu a ajudasse com o seu projeto de produzir um livro registrando e divulgando a trajetória das artistas do transformismo brasileiro, no eixo compreendido entre 1964 - 2014. Ela se preocupava com a preservação da memória de um campo do fazer artístico que também é sobretudo prova da capacidade de resistência e subversão criativa de pessoas que se construíram sob a marca de intensos processos de estigmatização e variadas formas de discriminação. Disse-lhe de minha impossibilidade naquele momento, em razão de meus compromissos com o doutorado.

Coluna Glorinha Pereira, jornal Correio de Copacabana, s/d.
Voltamos a nos encontrar, creio que no Seminário Cidadania Trans - Dignidade, Inclusão e Respeito, também promovido pela CEDS-Rio, em 29 de janeiro de 2013, na Clínica da Família do Centro (CAP 1), equipamento municipal do SUS, situado na Rua Evaristo da Veiga, 16, quase esquina com a Av. 13 de Maio, na região da Cinelândia. A partir daí mantivemos vários contatos, todos tendo como energia propulsora o desejo, agora comum, de recolher, registrar e divulgar as memórias do maior número possível das artistas travestis e transexuais (que, segundo Cláudia, para poderem ser registradas no Sindicado dos Artistas o próprio Sindicato teria criado a categoria profissional de "transformista", de modo a diferenciá-las das travestis que exerciam a prostituição).

Na justificativa que me encaminhou em 12 de junho de 2015, juntamente com vasto material, Cláudia destacou:
Mais do que mera diversão, glamour(, )  luxo para seu público, repercutem até hoje para inúmeras gerações de brasileiros os desdobramentos sociais e políticos alcançados pelos pioneiros espetáculos artísticos de travestis e transformistas em nosso país. Longe de assumirem o estigma de “frescos” e “covardes” que frequentemente lhes eram atribuídos, travestis, transformistas e seus produtores, não se deixaram intimidar pela ditadura militar que tomou o poder no Brasil a partir de 1964. É forçoso reconhecer que, através da resistência à censura, ao preconceito e às perseguições policiais de que eram alvo preferencial, travestis e transformistas contribuíram, voluntariamente ou não, para a experimentação de algumas das principais ideias lançadas pela revolução sexual e de costumes que ocorria na década de 1960 em todo o mundo.

Vários foram os desdobramentos dessa reaproximação.

Jornal Última Hora, 04/08/1977
Na medida de nossas conversas e das pesquisas que fui realizando, pude registrar alguns pontos naquilo que me parecia o esboço para uma futura história do transformismo no Rio de Janeiro. Nessa empreitada contei com a colaboração generosa dos pesquisadores Luiz Morando (pesquisador das formas de vida e sociabilidade da população LGBT em Belo Horizonte, no período entre 1950 a 1989) e Thiago Barcelos Soliva (na época pesquisando o mesmo universo das artistas travestis e transexuais, para o seu doutoramento, cuja tese teve por título Sob o signo do glamour: um estudo sobre homossexualidades, resistência e mudança social, e foi defendida em junho de 2016, pelo programa de pós-graduação em sociologia e antropologia do IFCS-UFRJ). O resultado foi o artigo Artes de Acontecer: viados e travestis na cidade do Rio de Janeiro, do século XIX a 1980, publicado em setembro de 2016.

Tentei, de comum acordo com Cláudia, a constituição de um Núcleo de Memória, junto ao Programa de Estudos Pós-graduados da Escola de Serviço Social da UFF (instituição na qual realizei o meu mestrado), onde pudesse ser reunido o acervo documental e iconográfico dessas artistas. Cláudia, generosamente, tomou a iniciativa, legando várias peças de seu acervo pessoal (fotografias, matérias publicadas em jornais e revistas, programas de peças e shows).

Ao mesmo tempo, dei início, com recursos próprios, à coleta de depoimentos em vídeo. Minha ideia era recolher os relatos das trajetórias de vida de travestis e transexuais em dois eixos de atuação:

=> o das profissionais do sexo (para cuja importância o museólogo e historiador Lenon Braga despertou o meu olhar) e

=> o das profissionais da indústria do entretenimento (expressão  que Cláudia costumava empregar).

Jornal Refletor, agosto 1982, p. 4
Por conta de diversos acontecimentos de ordem pessoal, até o momento apenas foram registrados, pelo primeiro eixo,  os relatos das trajetórias de Anyky Lima e Syssy Kelly, de Belo Horizonte, MG. Eles se encontram em bruto na minha conta no YouTube. Como ainda não foram editados e estão em pequenos arquivos (gerados pelo equipamento de mão que utilizo), num total de nove, apenas um foi disponibilizado o acesso ao público.

Pelo segundo eixo, o das memórias das trajetórias de vida das profissionais do teatro e musicais, apenas foram coletadas, em vídeo, as de Suzy Parker. Foram duas sessões, realizadas em datas diferentes, na sua residência, na Tijuca. Esse material, igualmente sem edição, não foi ainda transferido para a conta no YouTube.

Jornal Última Hora, 13/07/88
Em 18 de janeiro de 2017 enviei para Cláudia o arquivo contendo o artigo publicado, reafirmando o meu interesse em dar seguimento às entrevistas de história de vida. Ela me respondeu no mesmo dia:

(...) daremos todo o apoio que necessitares, pois tens toda a nossa aprovação e agradecemos pelo seu carinho sempre para conosco e à nossa causa...

A ideia é que esse material, assim como os demais depoimentos que forem sendo colhidos, possa merecer um tratamento de edição, de modo a produzir duas linhas de produtos. Documentário/s, de um lado; e, de outro, fontes audiovisuais de pesquisa, acessíveis via web. Tratativas foram iniciadas com duas instituições, no início do segundo semestre de 2018, para a concretização dessa proposta, de forma conjunta, e seguimento da coleta dos depoimentos. O advento das eleições presidenciais e tudo o mais que vem se desenrolando, contudo, levaram à interrupção das tratativas. Espero, porém, que elas possam ser retomadas após o período das férias de verão.

Também fiz a intermediação para que Paola Marugán, que se encontrava no Rio de Janeiro realizando o mestrado, a entrevistasse para a sua pesquisa. Paola foi comigo e o professor João Bosco Hora Góis à casa de Cláudia, em Irajá, onde a apresentei e ela a entrevistou. Ainda aguardo que Paola socialize o resultado desse encontro.





domingo, 23 de dezembro de 2018

Aracy de Almeida: a ousadia de ser

A sexualidade da cantora Aracy de Almeida é assunto que ainda hoje é objeto de especulação. Deve-se a isto o fato de haver ousado divergir ostensivamente do padrão normativo para o gênero feminino. Nascida em 1914 e criada no subúrbio do Encantado, ao lado de irmãos todos do sexo masculino, pode-se atribuir a esse convívio o seu peculiar gosto e estilo de gênero, mais próximos do convencionado ao masculino.

Segundo ela mesma conta, por volta dos catorze, quinze anos já vivia em noitadas e bebendo, chegando na casa dos pais acompanhada de amigos, homens (!), como ela, embriagados. Cantar, assim como frequentar bares e consumir bebidas alcóolicas, principalmente em público, não era em absoluto "coisa de mulher", ainda menos de mulher direita, de família. E seu pai, Baltazar Teles de Almeida, era evangélico. Como não abrisse mão de seu estilo de ser e de cantar, a Dama da Central terminou por abandonar a casa dos pais.

Aos 24 anos
Em 1932, os dezoito anos, antes da maioridade civil (que na época era de 21), Araca conhece Noel Rosa, que a define como "pitoresca" e a convida para ir até a Taberna da Glória, onde ele faria uma canção para que ela cantasse. Em 1933 diz-se ter inciado a sua carreira profissional, na Rádio Educadora, assinando o seu primeiro contrato em 1936, aos 22 anos. Já havia cantado em colégio protestante, terreiros de macumba e candomblé e escolas de samba. Sem falar nos botequins - da Taberna da Glória à Central do Brasil -, que frequentava com Noel Rosa, conhecendo e interagindo de igual para igual com todos os boêmios da época, de malandros a artistas plásticos, como Miguelzinho da Lapa, Brancura, Di Cavalcanti, Portinari.

No entanto, assim como diz e desdiz seu gosto por cantar, quando perguntada, a Arquiduquesa do Encantado ora diz que gosta de homens ("jogador de futebol", segundo a própria), ora diz que o homem de seus sonhos "nasceu morto".

Há quem diga que ela viveu um breve casamento com o goleiro Rei, do Vasco (Joel Santana), havendo também quem diga que ela manteve relacionamento com outros homens. Ela própria, porém, em entrevista no ano de 1979 para o programa Vox Populi, da Tv Cultura, SP, afirma com todas as letras que Rei era apenas seu amigo: "Aquilo é... um... Foi um... Vamos dizer... Ele era amigo meu ... Aquele caso do goleiro do Vasco, ele era apenas amigo meu. Eu estava começando naquela época... E não tinha nada a ver, nem estava interessada em casamento... Em nada, sabe? E até hoje eu fiquei solteira só pra ninguém pegar no meu pé" (aqui, aos 40:57).

Nessa mesma entrevista, logo em seguida é exibida a participação de outra pessoa do povo, dessa vez uma mulher, que pergunta porque ela "tem tanto jeito de machona" (aos 41:57). E Aracy responde: "É o que eu tô dizendo: - todo mundo anda de calça comprida... Eu não posso andar? É isso aí!" Mais adiante, outra mulher do povo lhe pergunta porque usa calças compridas, se não gosta de vestidos (55:17). Ela responde que, no passado usou "roupa..., muito vestido... que o Denner fez muita roupa pra mim, me apresentei muito vestida de saia", talvez tendo pretendido dizer roupa feminina. Agora, continua, prefere usar calças compridas, porque é mais cômodo, pois ela é muito "sem modos". Nesse momento, a câmera dá close em seus calçados, revelando a botina, as calças compridas e, subindo, o colete. Ela prossegue, dizendo que agora tem que usar botas, porque tem "o pé chato" e está muito acima do peso, não podendo mais usar salto alto. O apresentador do programa em seguida indaga a ela se não seria por conta dela usar calças compridas que aquela moça teria "perguntado dos seus hábitos um pouco masculinos" (56:13). Ao que ela responde não saber porque ela disse aquilo. Mas ao final (56:39), conclui: "Eu sei bem do que ela tá se referindo. Mas não é nada disso, não." Nas imagens disponíveis na internet é possível observar que quando de saias, Aracy usa o chamado terninho, isto é, o paletó feminino, sobrancelhas grossas e cabelo bem curto. 


Rodrigo Faour, pesquisador musical, lhe atribui a bissexualidade, embora não faça referência a nenhum relacionamento dela com mulheres. Acrescenta, porém, detalhes sobre suas vestimentas. Segundo o musicólogo, a Dama do Encantado costumava usar cuecas, em lugar da tradicional calcinha ou biquini. A própria Araca comenta, em depoimento para a televisão, que no Carnaval chegou a se fantasiar de Cauboi... Em outro, declara que detesta os serviços domésticos, preferindo a rua e a madrugada. Sem falar que usualmente empregava palavrões em sua conversa. O que sem dúvida compõe o estereótipo da lésbica, inclusive com a sua voz fanhosa, rouquenha.


Numa época em que a homossexualidade (e, por extensão, a lesbianidade) era considerada imoralidade e doença, capaz de, entre outras, desencadear internações sem volta em instituições psiquiátricas, não me parece absurda a hipótese de que ela fosse mesmo lésbica e, talvez, tal como Cauby Peixoto, se visse obrigada a sublimar os seus desejos. E, por encontrar-se em início de carreira, assim como o Cauby, se viu na contingência de simular um relacionamento heterossexual, talvez para satisfazer à gravadora, ao empresário, ao mercado. Com o tempo, adquirindo confiança, passa a exibir um estilo mais autônomo, como se pode acompanhar através de suas fotografias e vídeos, disponíveis na internet. Como esse aqui, por exemplo:




Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=NxVYsHZgfWI
https://www.youtube.com/watch?v=d-yOX595J_k http://www.cantorasdobrasil.com.br/cantoras/aracy_de_almeida.htm https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/25-perguntas-para-a-dama-do-encantado-aracy-de-almeida https://pt.wikipedia.org/wiki/Aracy_de_Almeida
Cauby, começaria tudo outra vez. Documentário. Direção:Nelson Hoineff https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/cinema/documentario-revela-intimidade-de-cauby-peixoto-9ggl956fg5qarfcyd5a585cve/

Créditos das imagens:
https://www.youtube.com/watch?v=m7Nuorfwcio
Aos 24 anos: Revista Carioca, 26 de fevereiro de 1938, obtida de http://bonavides75.blogspot.com/2015/08/aracy-de-almeida-101-anos.html http://radiobatuta.com.br/documentario/aracy-de-almeida-e-coisa-nossa-a-bossa-e-o-veneno-do-samba-em-pessoa/

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

minicurso: História dos ativismos LGBTs no Brasil, na ANPUH Nacional, em Recife, 2019

Também foi aprovada a proposta de minicurso que apresentei para o 30º Simpósio Nacional da ANPUH, ano que vem, em Recife


Objetivos: Por meio de exposições, leituras e debates, pretende contribuir para a capacitação de professoras/es em tema relevante e sistematicmente alvo de campanhas de desinformação, colaborando na construção de prática educativa promotora da cultura democrática e antidiscriminatória, que valorize o respeito às diferenças e a superação das desigualdades. 

O minicurso terá duração total de seis horas-aula, distribuídas em três sessões de duas horas, no período da manhã, nos dias 16, 17 e 18 de julho de 2018. 

O número mínimo de participantes inscritos para que o Minicurso possa se efetivar será de 20. Para cada minicurso serão abertas 30 vagas que poderão ser ampliadas, havendo comum acordo entre a Comissão Organizadora e o(s) professor(es).

ST Clio "sai do armário": Homossexualidades e escrita da história em 2019, na ANPUH Nacional

É com enorme prazer que comunico a aprovação do Simpósio Temático no 30º Simpósio Nacional de História da ANPUH-Brasil, a se realizar em Recife, PE, de 15 a 19 de julho de 2019


Cordenação: Rita de Cassia Colaço Rodrigues (autônoma) e Elias Ferreira Veras (UFAL)

RESUMO: Este Simpósio Temático (ST) pretende ser um espaço de encontro entre os/as historiadores/as que pesquisam as homossexualidades, compreendidas em suas singularidades históricas, e a historiografia. Se durante décadas a pesquisa histórica no Brasil silenciou sobre as experiências não-hetenormativas, que ao longo do tempo assumiram diferentes denominações e significados, nos últimos anos os olhares de Clio tornaram a mirá-las, revelando que as demandas do presente orientam os usos do passado e a produção histórica. Neste sentido, pretende-se que as pesquisas reunidas neste ST problematizem tal silenciamento, ao mesmo tempo em que reflitam sobre as transformações teórico-metodológicas observadas no campo da história com a saída de Clio do armário, ou seja, com o recente vigor que os estudos sobre as homossexualidades passaram a exibir na historiografia. 

PRAZO PARA INSCRIÇÃO DE APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS: 14/01/2019 a 22/03/2019: https://www.snh2019.anpuh.org/site/capa

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Fala para o lançamento do livro Quando ousamos existir: itinerários fotobiográficos do Movimento LGBTI no Brasil (1978 - 2018)


Hoje se deu o lançamento do livro  Quando ousamos existir: itinerários fotobiográficos do Movimento LGBTI no Brasil (1978 - 2018), na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, ALERJ.

Convidada, participei com um pequeno texto sobre a luta pela despatologização da homossexualidade no Brasil.

Como não pude estar presente, me foi solicitada uma mensagem, a ser lida no ato. Segue sua íntegra:

Prezadxs Organizadorxs, integrantes da Mesa, autores, ativistas, público presente:

Lamento não poder estar presente hoje, nesse momento de celebração e tributo.

Embora minhas últimas pesquisas, assim como as de Luiz Morando, em Belo Horizonte, MG, venham apontando que práticas ativistas “LGBT” no Brasil são bem anteriores a 1978, como historiadora e como ativista cuja formação se deu via jornal Lampião da Esquina e Grupo Somos-SP, cuja experiência me inspirou a co-fundar, na Baixada Fluminense, o GAAG - Grupo de Atuação e Afirmação Gay, em julho de 1979, não posso e não minimizo a importância decisiva desses eventos para a dinamização do desejo de ativismo já documentado existindo na subcultura viada desde pelo menos fins dos anos de 1950.

Inequivocamente foram esses dois acontecimentos que fizeram desencadear importantes ações pelo direito a uma vida livre de discriminação e violência, como bem retratam os textos e imagens constantes dessa fotobiografia do movimento nacional, referente ao período 1978-2018, em boa hora organizada pelo Marcio Caetano, Cláudio Nascimento, Treyce Ellen Goulart e Alexsandro Rodrigues, através do Centro de Memória LGBTI João Antônio Mascarenhas, da Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aos quais parabenizo e agradeço pelo convite para participar, falando um pouco sobre a luta pela derrubada do código 302.0 do Manual de Classificação Internacional de Doenças, popularmente conhecido como CID, que classificava a homossexualidade como “desvio e transtorno mental”.

É uma publicação que já surge consagrada, pela sua riqueza e abrangência, auxiliando na popularização do conhecimento de nossas lutas e história. Tenho certeza que concordarão e terão muito orgulho ao conferir esse retrospecto.

Abraços e boas leituras!

Rita Colaço
(Rita C. C. Rodrigues)

Rio das Ostras, 20 de dezembro de 2018.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Invisibilização & Presença de homossexuais, travestis e transexuais na história e na cultura

No dia 17 de julho passado participei do Seminário Museu Queer - A presença LGBT nos Museus, promovido pelo Museu da Diversidade de São Paulo em parceria com o Sistema Estadual de Museus (SISEM-SP), na mesa sobre o apagamento da presença dos LGBTs nas cidades, na memória, na história de nosso país.

Aconteceu no auditório da Pinacoteca, às 14h e foi composta, além de mim, por Remon Matheus Bortolozzi e Luiz Morando. O primeiro abordando os espaços ou roteiros da presença e cultura LGBT na cidade de São Paulo e o segundo apresentando um caso de não-reconhecimento da identidade de gênero de um homem transexual que viveu em Belo Horizonte entre 1952 e 1981, a partir de notícias de jornais mineiros.

O título de minha apresentação foi o mesmo que atribui a esta postagem: Invisibilização & Presença de homossexuais, travestis e transexuais na história e na cultura. Nela trato da memória das pessoas e cultura LGBT no contexto geral das demandas pelo direito à memória - as lutas por “memória, verdade e justiça” na ditadura civil-militar de 1964; os esforços para preservar a memória dos povos nativos (por exemplo, as lutas, em 2013 no Rio de Janeiro, pela preservação do prédio do Museu do Índio, abandonado e ocupado em resistência pela Aldeia Maracanã, e ameaçado de demolição pelo governador Sérgio Cabral e pelo prefeito Eduardo Paes, para a construir um estacionamento próximo ao estádio do Maracanã, quando das obras da Copa e das Olimpíadas); e a memória dos povos africanos escravizados (as demandas pela reinserção da presença desses povos e suas formas de vida, na região central do Rio, conhecida como “Pequena África”, na história e memória da cidade).

Pensando a cidade como um grande acervo à céu aberto de memórias e histórias dos protagonismos das pessoas LGBT, observo que ele pode ser pensado desde múltiplos lugares: geografia, antropologia, urbanismo, história, memória, museologia, política social, cultura, turismo.

A minha proposta, portanto, é a de pensarmos:

1) O museu para além dos espaços institucionalizados;

2) A cidade como um grande acervo à céu aberto, composto de territórios de “valor histórico” e “cultural”, que devem estar “à serviço” não só “da sociedade e de seu desenvolvimento”, como, sobretudo, dos coletivos que os constituíram;

3) A pesquisa e sua difusão como política social de reparação, recuperação identitária.

Tendo como Objetivos:

* Devolver a cidade também aos seus habitantes desqualificados historicamente;

* Reintroduzi-los na história, de onde foram invisibilizados;

* Conhecer e comunicar sua inventividade, seu protagonismo.

O Núcleo de Memória LGBT

Escrevi o texto abaixo em 16/11/2014. Deixei como rascunho aguardando a concretização do projeto, que não ocorreu. Hoje publico como registro histórico. Ressalto que não sei afinal qual a destinação que o depositário do acervo doado pela Cláudia Celeste deu ao material. Quanto às memórias de pessoas trans, dei início, também naquela época, à coleta de depoimentos, a partir de dois eixos: 1) memórias de transformistas (já coletadas as da multiartista Suzy Parker, faltando coletar as das demais integrantes de sua rede. Lamentavelmente não cheguei a colher as memórias da grande Cláudia Celeste); e memórias de antigas trans profissionais do sexo (já coletadas as de Anyky Lima e Sissy Kelly e que podem ser consultadas aqui).

Como já foi dito em outras ocasiões, a ideia primeira deste blog era a constituir um espaço no qual as pessoas pudessem, elas próprias, elaborar os seus depoimentos, resgatando, com isso, a memória das lutas dos movimentos LGBTs.
Essa concepção se aproximava do formato do Museu da Pessoa, porém privilegiando aquelas que militaram nas primeiras fases dessas lutas, no Brasil. Isso se devia à constatação de que muitas pessoas da segunda geração de ativistas pouco ou quase nada sabiam das primeiras lutas do movimento.
Foi uma ideia que me ocorreu a partir de conversas em lista de discussão do yahoo. Lista essa que congregava grande número de ativistas da segunda geração e alguns remanescentes da anterior.
Buscava, como dito, privilegiar o relato em primeira pessoa; que as próprias personagens pudessem, elas próprias falar de sua experiência na militância, sem mediadores (sem alguém que as entrevistasse).
Essa proposta inicial não prosperou. Busquei então ir recuperando algumas histórias de personagens LGBTs, seja dos ativismos estrito senso, seja da militância mais difusa, constituída na resistência do viver cotidiano, digitalizando algumas fontes...
Assim este espaço tem existido desde 2009, com já alentado acervo, embora de forma um tanto precária. Meus compromissos outros até aqui ainda não me permitiram transformar este espaço em um portal onde seja possível acessar fontes, vídeos e depoimentos.
No entanto, uma alegria: por meio do professor e pesquisador João Góis, do Núcleo Transciplinar em Estudos de Gênero (NUTEG), da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense e com a colaboração do museólogo e historiador Lenon Braga, foi possível dar início a uma proposta que, em certo sentido, contempla parte desses anseios: A criação de um Núcleo de Memória LGBT - um acervo de fundos arquivísticos, documentais, iconográficos e audiovisuais, de pessoas e ativistas LGBT.
Por meio da cessão do acervo pessoal da atriz trans Cláudia Celeste, cuja presença nos palcos nacionais e internacionais remonta os anos setenta do século passado, em parceria com o seu companheiro e também ator Paulo Wagner, foi dado início a implementação desse projeto, que contou também com o acolhimento por parte da Coordenação do Programa de Estudos Pós Graduados em Política Social, na pessoa da professora doutora Rita Freitas.
Além do acervo de Cláudia Celeste, que integra o fundo das artistas travestis e transexuais, em fase de constituição, paralelamente também está sendo constituído o fundo de ativistas trans anti HIV/aids, com a coleta de depoimentos em vídeo já iniciada, através dos depoimentos de Anyky Lima e Sissy Kelli, residentes em Belo Horizonte, MG.
Ambos os fundos referem-se a personagens cuja faixa etária seja acima dos cinquenta anos de idade.
A proposta é a recuperação e socialização dessas histórias de vida, devolvendo-as ao segmento LGBT, mas também à sociedade em geral e aos pesquisadores,
Às pessoas interessadas em também doar os seus acervos e relatos, basta enviar mensagem para o email concretopensado@yahoo.com.br.

As recordistas de público