domingo, 26 de abril de 2009

GAAG o primeiro grupo nascido no RJ

Estava devendo uma postagem sobre esse grupo, nascido na Baixada Fluminense, região popular da área metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, composta por vários municípios (Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nova Iguaçu etc).

Bem o GAAG, ou Grupo de Atuação e Afirmação Gay surgiu em julho de 1979. Foi o primeiro grupo de ativismo que se tem notícia no Rio de Janeiro, nos moldes inaugurados com o Somos/SP e disseminado pelo país inteiro através das páginas do jornal Lampião da Esquina. Na antiga Guanabara já existia o Turma Ok, ainda existente nos dias atuais, que sempre teve uma orientação meramente recreativa.

Era formado majoritariamente por mulheres, muitas delas hoje em dia seriam chamadas e talvez se chamassem a si de "afrodescendentes". Naquela época, eram morenas, negra (uma) e brancos. Homens (gays), houve apenas um - fundador e assíduo participante. Outro, um artista plástico residente em Jacarepagua, aparecia por lá vez ou outra.

Os integrantes do grupo moravam em municípios variados, todos limítrofes entre si: Duque de Caxias, São João de Meriti e Nova Iguaçu.

Segundo uma informante, a peculiaridade de ser majoritariamente feminino decorreu de mera casualidade, do desinteresse demonstrado pelos gueis convidados.

Também, para os participantes, não estavam colocadas determinadas questões, hoje na ordem do dia: etnia e gênero.

Os espaços de socialização através dos quais os participantes principais se conheceram foram a quadra de esportes de uma faculdade em Caxias e um colégio secundarista em São João de Meriti.

Esse espaço esportivo, onde as lésbicas sobretudo iam assistir partidas e treinos de handebol e futebol de salão femininos, foi fundamental para que homossexuais de ambos os sexos pudessem construir suas redes de apoio e amizade, num momento em que a homossexualidade era muito marcada pelo silenciamento, inexistindo modelos de vivências positivas para tais pessoas.

Segundo relato, o contexto repressor da época era intenso: "ninguém se assumia a não ser dentro do grupo, e olhava, se certificava bem pra ver se as portas estavam fechadas, e se os vizinhos não estavam a escutar a reunião do grupo.”

A mentalidade vigente no período pode ser avaliada a partir de títulos de notícias comumente exibidas vinculando a homossexualidade exclusivamente à delinquência. Glauco Mattoso é autor de matéria publicada no Lampião (nº. 4, 25 de agosto a 25 de setembro de 1978, pág. 5), sob o título “Não me espreme que eu sangro!”, onde traz uma amostragem bastante eloqüente através dos títulos das manchetes estampadas na primeira página do jornal “Notícias Populares” em apenas oito dias do mês de julho de 1978: “’Homossexuais seqüestram 2 irmãos em SP’ (dia 11); ‘Mãe acha que travestis mataram um dos filhos’ (dia 12); ‘Homossexual é suspeito de ocultar um crime’ (dia 13); ‘Escapei do inferno dos homossexuais’ (dia 18); ‘Polícia caça homossexual seqüestrador’ (dia 20); ‘Dois casamentos de homossexuais revoltam o povo’ (dia 21); ‘Mistério: homens que se casaram sumiram’ (dia 21); ‘Lésbica matou Dulcinéia que lhe negou amor’ (dia 31).”

O GAAG funcionou mais ou menos como os demais grupos da época: reuniões onde se discutiam sobre o esvaziamento dos termos pejorativos cotidianamente empregados pela sociedade heterossexual para humilhá-los; leituras de textos que abordassem a temática (inclusive e sobretudo o jornal Lampião da Esquina); vivências do preconceito na família, por aí.

Como a maioria de seus integrantes ainda morasse com os pais, as reuniões primeiras aconteceram em espaços públicos (jardins do Museu de Arte Moderna e praças, por exemplo).

Iam em conjunto a shows de MBP, teatro, festividades em terreiros de candomblé, bares e boates de “entendidos”, apresentações de partido-alto ou a simples passeios pela cidade do Rio de Janeiro.

Quando uma das integrantes passou a dispor de residência própria, as reuniões se transferiram para sua casa, em São João de Meriti, na Rua São Pedro - na verdade um quarto térreo com banheiro, num terreno repleto de habitações semelhantes ("avenida").

Os participantes eram jovens, estudantes (secundaristas e universitários) e trabalhadores, filhos da pais igualmente trabalhadores de baixa renda, na faixa etária dos vinte anos. A imensa maioria, devido ao trabalho e estudo concomitante (uns com jornada de trabalho inclusive aos sábados), dispunham de pouquíssimo tempo livre, seja para o lazer, seja para os simples cuidados pessoais. Nesse contexto, o tempo disponível para as reuniões e qualquer ativismo político extragrupo era bastante precário.

Uma das participantes já era "desquitada", porém sem filhos. Todos os demais eram solteiros.

Quando estava para se formar o Grupo Somos/RJ, o GAAG recebeu, em sua caixa postal, em Duque de Caxias, um "aerograma" de Leila Míccolis, falando sobre o desejo de alguns "entendidos" cariocas de também criarem um grupo e convidando o pessoal do GAAG para participar dessa primeira reunião. O pessoal do GAAG foi. A reunião aconteceu na casa de Leila, na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel. O Somos/RJ, pelo menos até dezembro de 1979 compartilhou a caixa postal do GAAG.

Uma informante, integrante desde a primeira hora, assim definiu o significado do GAAG:

“O GAAG era um grupo que a gente poderia falar o que você sentia, o que você realmente é. O que você quer para você. Sem medo de dizer, sem medo de ser apedrejado, sem medo de ser enxovalhado; você simplesmente é você.” [sic]
“(…) Naquela época, em 1979, [na Baixada Fluminense] ser gay significava ser fora-da-lei: ‘ah, eu sou anormal, eu sou gay’.”

“(…) [Os homossexuais dessa região se sentiam como] que carregavam o peso do mundo por ser homossexual. Não havia amigos [com quem compartilhar suas experiências, angústias, sofrimentos e alegrias], então o GAAG atuou dessa forma [possibilitando esse espaço de socialização, de reconhecimento de que as questões pessoais eram na verdade coletivas]. Quando você chegava lá era como se fosse um consultório. Você chegava lá e você dizia: “Olha, eu me descobri assim, porque eu me peguei olhando pra minha prima, me peguei olhando pra um amiguinho do colégio e, aí, eu percebi que o meu gosto, minha preferência era outra. Só que guardei aquilo comigo porque eu me achava uma aberração”. E o GAAG tirou isso da cabeça das pessoas. Porque cada um ouvia o seu depoimento, cada um ouvia a sua história, e cada um ia pra casa aliviado, como se a sua história acontecesse com várias pessoas, só que você não tinha conhecimento daquilo. É como você ter diabetes e achar que só você tem diabetes. Aí você para e pensa: ‘Poxa, como foi bom o GAAG na minha vida’ e como é bom você poder se reunir com pessoas que pensam igual. É muito bom. E o GAAG na época foi tipo a libertação.”

O grupo participou do “Encontro Nacional do Povo Guei” (jornal Lampião da Esquina nº. 20, jan./80, pág. 7), na ABI, no Rio: “O primeiro encontro de homossexuais militantes, com a presença de 60 pessoas procedentes de São Paulo, Guarulhos, Sorocaba, Brasília, Belo Horizonte, Caxias e Rio”.

O jornalista Francisco Bittencourt, autor da matéria no Lampião noticiando os acontecimentos do Encontro, escreveu “desta vez, pela primeira vez, um movimento revolucionário não está adotando os maneirismos reacionários para poder sobreviver. Ele fala a sua própria linguagem, continua vivendo dentro de seus costumes e, à medida que lhe é aberto um espaço, ocupa-o com sua presença, sem se mascarar do que não é e sem negar a essência de sua natureza. Isso está acontecendo com os movimentos dos negros, das mulheres e agora dos homossexuais. Será portanto muito difícil combater tais movimentos - seus argumentos e suas armas pertencem a um universo novo e desconhecido do sistema, que ele não consegue caricaturar. (…) Tal coisa não poderá ocorrer com o atual movimento de minorias oprimidas porque, nas suas raízes, esse movimento é revolucionário (e não simplesmente reformista), quer mudar o esquema do poder, tem uma visão que difere totalmente tanto da direita como da esquerda, sendo portanto indigesto por qualquer lado que queiram consumi-lo. Para aceitá-lo, os regimes modernos, de direita ou de esquerda, terão de modificar-se na essência, acabando com tudo o que há dentro deles de reacionário e perverso. E para destruí-lo, se chegarem a esse extremo, estarão praticando genocídio, pois pela primeira vez na história têm pela frente uma revolução desarmada.”

Assim foi noticiada a participação dos representantes do GAAG no Encontro:
“Lúcia e Wolnei, do Grupo de Atuação e Afirmação Gay - GAAG/Caxias, ocuparam a mesa logo depois para rejeitar qualquer tentativa de estigmatizá-los como ‘representantes da Baixada’; segundo eles, a Baixada não é uma região especial, nem mesmo quanto à violência, na medida em que todo o país vive atualmente uma situação de extrema violência; eles disseram, também, que o grupo, embora de homossexuais, se preocupa não apenas com a liberação homo, mas com a liberação sexual; falaram das dificuldades de arregimentar homossexuais para os quadros do grupo na região em que atuam, e rejeitaram com firmeza o comentário feito por alguém no auditório, para quem ‘o problema é que quem mora na Baixada está a fim de sair de lá.’” (Lampião, nº. 20, jan./80, pág. 8)


Logo após o evento na ABI, porém, o grupo, avaliando suas condições objetivas de atuação, decidiu se concentrar apenas em suas reuniões internas, onde a participação era aberta a qualquer visitante em igualdade de condições com qualquer outro integrante:

“Havia muita polêmica. As pessoas saíam aborrecidas às vezes, por não ter sido interpretada da maneira que gostaria que fosse, mas todos eram ouvidos.” (sic)

Em decorrência da intensidade das discussões travadas em suas reuniões, da escassez de meios para ações outras, de recursos e de tempo, pouco depois o grupo se dissolveu.


(O presente relato é construído a partir da pesquisa AÇÃO E REFLEXÃO DE UM ATIVISMO HOMOSSEXUAL NA BAIXADA FLUMINENSE: A experiência do GAAG - Grupo de Atuação e Afirmação Gay - 1979-1980, de minha autoria, apresentada à disciplina Métodos e Tecnicas de Pesquisa em História, na UFF, Departamento de História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, dezembro de 2004).

3 comentários:

Míriam Martinho disse...

show de bola o relato. O GAAG seguia a dinâmica do Somos-SP e do LF, com a ênfase na socialização e no apoio aos participantes, coisas que hoje tanto fazem falta. Gratíssima pelo informe.

um abraço,

Míriam

YONE LINDGREN disse...

BOM MESMO lembrar destes momentos...a caixa postal utilizada pelo SOMOS -RJ era no ECT na 1o de Março,no centro do RJ,mas,eu ignorava que esta pertencia ao GAAG...engraçadamente eu é que conferia a caixa postal e as correspondencias do SOMOS - RJ...e fico pensando nas datas,porque tivemos a 1a reunião do SOMOS -RJ,a citada reunião na casa de Leila Micolis em 1978...

R.Colaço disse...

Yone, tudo bem?

É, você tem toda razão, essas coisas da memória são realmente bem engraçadas. Você acredita que eu não me lembrava a mínima de que havia ido com o JASM à OAB/RJ para consultá-la a respeito do pleito do TR na Constituinte? Somente lendo o boletim redigido pelo JASM e constando a notícia é que vi.

Segundo o Lampião [matéria do próprio Somos], em SÃO PAULO o SOMOS nasceu em maio de 1978 (nº 12, maio de 1979, pág. 2).

O Libertos, Guarulhos, em fevereiro de 1979 [matéria do próprio grupo] (nº 16, setembro de 1979, pág. 9)

O GAAG tem uma carta de solidariedade ao Lampião publicada no Nº 16, setembro de 1979, pág. 7 (presume-se que em agosto, época provável de fechamento do jornal, de ele já existisse).

O SOMOS/RJ é noticiado pelo Lampião no Nº 17, OUTUBRO DE 1979, PÁG. 2:
Título da nota: “No rio, pessoal cria mais um grupo homo”
Dá conta da 1ª reunião do Somos/RJ. Divulga a Cx. Postal do GAAG para contato.

Nº 18, novembro de 1979, pág. 18.
– Seção cartas na mesa – respondendo carta intitulada “Simone ocupada”.
– Informa que para contatos com o Grupo Somos/RJ, deve escrever para a Cx. Postal do GAAG/Caxias.