domingo, 5 de abril de 2009

O Arouche é nosso

Naquela sexta-feira 13 de junho, dia de Santo António, quase mil pessoas se reuniam diante do Teatro Municipal, no começo da noite. É verdade que há uma chuva intermitente; mas pela panfletagem e conta tos realizados, esperava-se pelo menos o dobro de pessoas. Talvez os chamados setores de­mocráticos não tenham achado a causa suficientemente nobre. No entan­to, seus escassos representantes ali presentes pareciam dispostos a tirar o máximo rendimento possível. Compareceram sim as bichas rasgadas que pouco têm a perder além da vida. Mesmo debaixo de um certo clima de tensão, foram se abrindo algumas faixas que pediam a exoneração de Ríchetti, protestavam contra a prisão cautelar ali experimentada e exigiam o fim da violência policial, da discriminação racial e a libertação de putas e travestis. Foram lidas várias cartas assinadas pelos diversos grupos organizadores do Ato. Certamente acostumados aos estereótipos tipo Tra­palhões, os transeuntes olhavam perplexos para aqueles beijos, abraços e desmunhecações legítimas. E devem ter ficado ainda mais confusos quando estourou o primeiro slogan, gritado numa só voz: ADA, ADA, ADA RICHETTI É DESPEITADA. Ou então: A B X, LIBERTEM TRAVESTIS. Formada a passeata, logo depois, as frases foram pipocando, quase sempre impublicáveis: RICHETTI ENRUSTIDA DEIXA EM PAZ A NOSSA VIDA. UM DOIS TRÊS RICHETTI NO XADREZ. ABAIXO O SUBEMPREGO MAIS TRABALHO PARA OS NEGROS. E muitos manifestantes se espantaram quando algumas feministas puxaram um refrão longamente repetido: SOMOS TODAS PUTAS.

Subindo pela avenida São João e parando o trânsito, a passeata abria-se com um cordão de mulheres enlaçadas. Podia-se ouvir em uníssono: O GUEI UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO ou AMOR FEIJÃO ABAIXO O CAMBURÃO (que, para contentar os mais tradicionais, variava para ARROZ FEIJÃO ABAIXO A RE­PRESSÃO). Já na Praça Júlio Mesquita, a passeata se detém diante do Edifício Século XX, que abriga grande número de prostitutas e foi recentemente inva­dido pela polícia; temerosas de revanche, as mulheres não compareceram ao Ato, mas saem às janelas e são aplaudidas. Aproximando-se do Largo do Arouche, ecoam os gritos uníssonos de LUTAR VENCER, MAIS AMOR E MAIS PRAZER, ou também: AMOR TESÃO, ABAIXO A REPRESSÃO. A essa altura, algu­mas bichinhas mais afoitas pulam numa desmunhecação feroz e ensaiam seus próprios slogans do tipo RICHETTI É LOUCA, ELA DORME DE TOUCA. Entrando no Largo proibido desde há duas semanas, os manifestantes gritam O AROUCHE É NOSSO. Como a passeata estaciona ali por algum tempo, vários estabeleci­mentos amplamente sustentados pelas bichas começam a baixar as portas, in­clusive o famigerado Caneca de Prata, cuja clientela de viados classe média, entre incrédula e divertida, espia as primas-pobres, através da porta de vidro. É só na Boca do Luxo que a passeata vai se dissolver, em meio a um ligeiro alvo­roço de alarme falso.

Texto de João Silvério Trevisan em Devassos no Paraíso (3ª edição, 2000, SP: Record, págs. 506-507) relatando a Primeira Passeata de bichas, lésbicas e travestis contra a estigmatização e a violência estatal, em 13 de junho de 1980. Publicado originalmente no Lampião da Esquina de julho de 1980, nº 26, págs. 18-19.

Um comentário:

Míriam Martinho disse...

Rita,

postei o trecho sobre a passeata na íntegra. Acho que ficou melhor.

Bj,

Míriam