sexta-feira, 3 de julho de 2009

POR UMA POLÍTICA TESUDA, TERNA E FRATERNA: O MHB, ESSE NOSSO PATRIMÔNIO AINDA DESCONHECIDO


O movimento homossexual no Brasil surgiu numa época em que a homossexualidade ocupava a esfera do não-dito, do impronunciável - marcada que estava por uma representação que fora construída em torno da marginalidade, imoralidade, deformação de caráter e doença.

Era fins da década de setenta do século passado. Vivia-se ainda sob o regime militar. O argumento da "moral e bons costumes" servia para manter e reforçar essas noções negativas que prevaleciam a respeito de pessoas cujo desejo e afeto se dirigiam para seres de seu próprio sexo. E entre as práticas utilizadas para a preservação dessa imagem, prisões, espancamentos, extorsões e abusos sexuais, praticados por policiais civis e militares, mesmo com a inexistência de legislação criminalizando atos homossexuais.

Nessa época, fazer parte de coletivos homossexuais significava, sobretudo, enfrentar o medo profundo e generalizado. Significava, primeiro, lutar e vencer uma luta consigo próprio.

Depois, uma luta contra a submissão à invisibilidade: tomar a palavra e, em nome próprio, ocupar o espaço público e desvelar o conteúdo político de sua subjetividade; expressar o direito ao prazer e ao afeto como atos políticos. Transmitir a consciência do aspecto político dos atos privados:

[...] Era fundamental desfazer o muro entre política e vida pessoal: nossas trepadas (nosso prazer) eram atos políticos e nossa atuação política (no sentido de mudança social direta) devia estar cheia da ternura que tínhamos aprendido fora e debaixo dos lençóis. ... Que nosso ‘discutir’ política já fosse uma ação de revisão dos métodos políticos geralmente machistas e autoritários... Nossa práxis política queria misturar-se com o prazer e a ternura. (Jornal Lampião da Esquina, nº 12, maio de 1979, p. 3, matéria “Grupo Somos: uma experiência”.)

Significava dar início a uma luta em favor da superação daquela imagem construída desde fora e invariavelmente negativa - seja como anormal, monstruoso, delinquente ou, o que apenas representa uma outra face da mesma desqualificação, como risível, patético, grotesco. E pagar o preço. Todos eles.

O enfrentamento de situações de desqualificação pública não foram poucas. Rosely Roth, por exemplo, uma das principais ativistas do Lésbico-Feminista (primeiro coletivo de lésbicas brasileiras, egresso do Somos) e uma das editoras do Chanacomchana, durante entrevista ao programa da Hebe Camargo, na televisão, foi objeto da ira de uma senhora, revoltada com o fato de sua filha ter saído de casa para morar com uma mulher. (Jornal O Pasquim, agosto de 1985, p. 8.)

Jornalistas, não apenas, mas sobretudo, em veículos de imprensa sensacionalista, mas não só, em muito ajudaram a encarcerar, condenar e destruir reputações, sem qualquer responsabilidade e respeito para com a ética e o princípio da presunção de inocência.

Assim foi com Ninúccia Bianchi, acusada e julgada pela imprensa como assassina de sua companheira Vânia da Silva Batista ("Lésbica matou amante grávida, por ciúmes". jornal Última Hora, 17 e 18/05/1980).

O mesmo com Antônio Chrysóstomo, jornalista, crítico de arte, produtor teatral e integrante do conselho editorial do Lampião. Vítima de falsa denúncia de abuso sexual contra menor cuja guarda possuía, foi preso em 03/07/1981 e condenado em 12/02/1982 pelo juiz titular da 10ª Vara Criminal da Capital do RJ. O clima favorável ao seu encarceramento foi construído com a publicação de matéria no jornal Luta Democrática com o título: “Servia menor de bandeja nos embalos do mexe-mexe”. O escândalo produzido ensejou o pedido e a decretação de sua prisão preventiva (Aguinaldo Silva, em entrevista ao jornal Pasquim, 3 a 9/9/1981, pág. 15). No pedido, o Promotor apresentava como justificativa para a prisão a periculosidade do acusado, pois, em seu entendimento o mesmo era portador de "várias espécies de vícios e algumas taras" – entre os quais o de ser editor do Lampião da Esquina - “segundo se dessume do inquérito policial realizado, tem várias espécies de vícios, e, certamente, algumas taras. Alcoólatra, e homossexual ...”; “declarou-se um dos editores do jornal ‘O Lampião’. ... jornal [que] faz exploração sensacionalista da questão homossexual. Por ele [o jornal anexado], V.Exa. terá uma noção exata da personalidade daqueles que lêem o tal jornal e, a fortiori, dos seus responsáveis.”

Ninúccia conseguiu ter a sua inocência reconhecida pelo Conselho de Sentença do 4º Tribunal do Júri do RJ, em 26/06/1980. Embora absolvida, sua imagem já havia sido estroçada pela ação de jornalistas inconsequentes e venais, sofrendo as sequelas de uma tão pública desqualificação ainda por muitos anos (Míccolis, 1983, p. 90).

Chrysóstomo permaneceu preso por “1 ano, 9 meses e 14 dias”, até que fosse inocentado em apelação, em 17/03/1983, com um voto divergente. Na sentença condenatória de primeiro grau, seguindo o exemplo do juiz que condenou Oscar Wilde em fins do século XIX, o magistrado carioca aplicou ao Réu, além da pena pelo máximo, "a medida de segurança de internamento em casa de Custódia e tratamento pelo prazo de 1 (HUM) ANO “ex vi” do disposto nos artigos 78, II c.c. art. 92, II do Código Penal.” Também deixou “de lhe conceder qualquer dos benefícios das Leis 5941/73 e 6416/77 tendo em vista a imposição da medida de segurança prevista no artigo 78 II do Código Penal que faz presente a presunção da periculosidade”. O Acórdão que lhe reconheceu a inocência afirma: “O exame dos autos revela a completa precariedade da prova. ... Um julgamento condenatório há de ser alicerçado sobre a certeza jurídica da existência dos fatos e da autoria e não sobre a areia movediça de possibilidades, ainda que muito plausíveis. No caso dos autos, a prova deixa de fornecer essa certeza jurídica e daí o provimento do recurso, para absolvição do réu."

Foi o momento do afirmar-se. Sair do lugar até então lhes destinado de seres abjetos, párias. Duro, difícil, doloroso. Como todo gesto inaugural.

Não existiam modelos, experiências prévias nacionais, consoante nossa realidade cultural tão ambígua. Tudo estava por desbravar: ressensibilizar, (re)conhecer os próprios sentimentos acerca de sua sexualidade e a dimensão de poder por trás das representações vigentes; a indizível e nutridora experiência de sair do isolamento e poder partilhar as dores e delícias presentes na experiência da diferença, da marginalização, da invisibilidade. E, em coletivo, construir discurso e formas de enfrentamento a processos de desqualificação tantas vezes sutis, disfarçados de humor, incrustados por meio de práticas naturalizantes solidamente aderidas pelo conjunto da sociedade nacional; vencer a histórica descrença no potencial de transformação individual e coletivo.

Leila Míccolis (advogada, poeta, escritora, colaboradora do jornal Lampião da Esquina e cofundadora dos grupos cariocas Somos/RJ e Auê) registrou em artigo memorialístico o grau de desafio pessoal contido nesse gesto político primeiro que constitui a toma da palavra, a autoconstituição como agente da própria subjetividade e da história, sem poder se apoiar em um discurso ou programa préconstituídos:

“A coisa não foi fácil. Tivemos uma existência quase clandestina e muito conturbada. Imaginem um bando de pessoas freqüentemente com problemas básicos de aceitação pessoal, tentando encontrar o ponto comum para iniciar um diálogo sobre si mesmas. Tudo bastante dilacerado, de um lado. Muita dúvida porque tudo era novo […] De fato, não tínhamos nenhuma fórmula para mudar o mundo.” (Míccolis & Daniel, 1983, 98)

Leila também teve sensibilidade e argúcia para compreender a profundidade e o alcance – em termos existenciais e políticos -, daquele acontecimento divisor:

“Falar em primeira pessoa, jogar nas reuniões a vivência particular como um dado político, quando então boiavam claramente as formas de repressão, a partir da família. Substituindo as palavras de ordem e os velhos chavões, surgia o eu, que está em todos nós, o eu plural, nosso emocional exposto não como uma sessão terapêutica (quem falou em doentes ou cura?), mas política e patética. E poética. Não se falava de repressão como uma palavra vaga que passava ao longe, mas da nossa própria, a que dormia e acordava conosco, na nossa cama. Foram dias importantíssimos de descoberta, estávamos diante de uma revolução sem armas, e que no entanto era tão perigosa quanto as explosões nucleares, ou os arsenais de munições.” (Míccolis & Daniel, 1983, 88.)

Significava uma aposta na utopia. Sim, porque, naqueles anos, constituía uma completa e temerária utopia para a imensa maioria de brasileiros entendidos, bichas, fanchonas, viados, homossexuais, gays e lésbicas, imaginar a possibilidade de um dia, por exemplo, poderem ingressar em juízo para reivindicar o reconhecimento de direitos decorrentes de uma relação estável homossexual ou a extensão das garantias constitucionais.

Coerente com o espírito da época, essa energia utópica que fazia irromper o Movimento Homossexual Brasileiro (ou Movimento de Liberação Homossexual, como também era chamado na ocasião) vinculava-se aos ideais libertários que explodiram dez anos antes na Europa e nos Estados Unidos, mas que, no Brasil, foram sufocados pela ditadura militar.

Influenciado também pelo Gay Power estadunidense, os traços característicos presentes naqueles anos iniciais, como de resto os de todos os movimentos de inspiração libertário/anarquista, eram uma firme postura contra todas as formas de autoritarismo e estruturas hierárquicas; a defesa da ação política direta, sem mediação, a partir da própria experiência.

Embora houvesse pontos de vista divergentes quanto à validade ou não da participação concomitante em outras instâncias políticas, com aqueles que expressavam profunda desconfiança e distanciamento da representação política via partidos e parlamentares - e aqueles outros que acreditavam no investimento de aproximação com as instâncias tradicionais, o entendimento majoritário daqueles primeiros militantes - e não apenas dos integrantes do Somos/SP - era que o movimento homossexual deveria se manter como uma instância de ação política autônoma, independente e suprapartidária. A defesa da preservação da autonomia passava, tanto pela desconfiança aprendida através da forma de visão igualmente preconceituosa com que a esquerda até então lidara com o desejo e a homossexualidade, pelo receio de serem instrumentalizados, cooptados por alguma corrente ideológica em busca de quadros para sua base, quanto pela consciência de que víncular-se a qualquer corrente ou partido comprometeria necessariamente a construção e os rumos do próprio movimento, ainda em seus primeiros passos.

Suas idéias-força podem ser verificadas através dos nomes dados aos grupos, onde se encontram os apelos à ação política, a afirmação da identidade e da liberdade: Grupo Somos de Afirmação Homossexual; Grupo de Atuação e Afirmação Gay; Grupo de Ação Lésbico-Feminista; Auê – Grupo pela Livre Opção Sexual; Outra Coisa – Grupo de Ação Homossexualista; GATHO – Grupo de Atuação Homossexual; Grupo Opção à Liberdade Sexual – GOLS/ABC. (MÍCCOLIS, op. cit., p. 98-104; COLAÇO, 1984, p. 64.)

Vocalizam o direito ao prazer sexual, à autogestão do corpo e - o que não é pouco - o direito à felicidade. Na realidade, estabelecem a felicidade como o fim último do Movimento – meta que, dez anos depois, seria formalmente incorporada como objetivo fundamental da República Federativa do Brasil pela “Constituição Cidadã”, promulgada em 1988 - art. 3º, inciso IV:

“O objetivo do movimento guei é a busca da felicidade e por isso é claro que nós vamos lutar pelas liberdades democráticas. Mas isso sem um engajamento específico, um alinhamento automático com grupos da chamada ‘vanguarda’”. (Jornal Lampião da Esquina, nº 10, março de 1979, p. 9.)

A reivindicação que faziam da legitimidade de suas práticas afetivossexuais não se restringia a uma aceitação pura e simples por parte da sociedade, mas, antes, enquanto parte integrante de um processo de transformação global, capaz de contemplar outros segmentos igualmente oprimidos e silenciados.

Assim dizia o Lampião da Esquina, em seu número zero:

“[o que o Lampião] reivindica em nome dessa minoria é não apenas se assumir e ser aceito – o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização enquanto tal ... Mostrando que o homossexual recusa para si e para as demais minorias a pecha de casta, acima ou abaixo das camadas sociais, que ele não quer viver em guetos, nem erguer bandeiras que o estigmatizem, que ele não é um eleito nem um maldito, e que sua preferência sexual (sic) deve ser vista dentro do contexto psicossocial da humanidade como um dos muitos traços que um caráter pode ter, LAMPIÃO deixa bem claro o que vai orientar a sua luta: nós nos empenharemos em desmoralizar esse conceito que alguns nos querem impor – que a nossa preferência sexual (sic) possa interferir negativamente em nossa atuação dentro do mundo e que vivemos.”. (Jornal Lampião da Esquina, nº 0, abril de 1978, p. 2, editorial)

Em variados momentos aqueles ativistas pioneiros deixaram claro o global do processo de transformação, jamais se vendo como desvinculados e insensíveis às demais lutas em curso na sociedade brasileira:

“[...] Juntamente com outros setores falsamente chamados ‘minoritários’ (ver LAMPIÃO número 10), exigimos o espaço social que vêm sendo negado na luta pela transformação da sociedade: afirmamos a sexualidade como uma das liberdades democráticas e um dos direitos humanos a serem reivindicados – sem falsas prioridades impostas compulsoriamente, pois se trata de incluir tais elementos numa análise mais global da sociedade. (sic)” (Grupo Somos: uma experiência. In: jornal Lampião da Esquina, nº 12, maio de 1979, p. 2)

A ousadia inscrita no MHB pode ser avaliada se compararmos as falas acima com a do movimento feminista de então, onde temas como sexualidade e prazer eram ainda fortemente marcados pelo tabu.

Francisco Bittencourt, em matéria para o Lampião da Esquina noticiando o 1º Encontro Nacional de Mulheres, realizado no Rio de Janeiro em 1979, registra que “[...] Em nenhum momento a palavra ‘machismo’ foi pronunciada no microfone por quem quer que fosse. Ao contrário, os poucos ‘companheiros’ presentes foram homenageados em grande estilo por Heloneida Studart, que pediu aplausos para ‘esses militantes, os novos feministas, os homens’. [...] Sexo também quase não se tocou, muito menos em prazer ou orgasmo. Fora uma congressista que iniciou sua intervenção dizendo que os homens pensam que ‘somos uma vagina ambulante’, apenas um grupo de 21 mulheres lançou um documento abordando, entre outras coisas, a libertação do corpo, mas sofreu forte oposição de representantes paulistas da periferia e de donas de casa. ‘Não estavam ali para tratar de tais assuntos, mas da luta maior’, isto é, a luta pela democracia”. (BITTENCOURT, Francisco. Contra o mito do sexo frágil, em busca do próprio caminho. In: Jornal Lampião da Esquina, abril de 1979, p. 9-10; TELES, 2003, p. 76).

Paralelamente às experiências de reflexão sobre a própria subjetividade, vão ocupando o cenário público como podem.
De participações em debates e fóruns acadêmicos - por exemplo a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, em 10/07/1980, quando se fizeram presentes os grupos Nós Também, de João Pessoa, Grupo de Ação Lésbica Feminista, de São Paulo, Somos, do Rio de Janeiro, Grupo Auê, do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 11/07/1980) - à ocupação de espaços nos meios de comunicação e promoção de atos contra perseguições e violências policiais (ver entrevista com os ativistas Míriam Martinho e Ricardo Aguieiras, em http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=8600), partem em busca de alianças com outros atores políticos (parlamentares, cientistas sociais e demais movimentos ditos minoritários), inaugurando diálogos, tecendo solidariedades. Têm, porém, consciência da fase em que se encontram e do papel que ocupam no processo de transformação histórica:

“Por enquanto, estamos engatinhando em lutas-político-apartidárias. Nosso estágio ainda é o da mobilização da opinião pública através do grito: berra-se o mais possível até que nosso clamor desperte a atenção do maior número de pessoas. Mas não se trata de uma gritaria histérica. É histórica.” (MÍCCOLIS, p. 111.)

Embora destituído de coordenação, seja regional seja nacional, seguem em suas atividades, cada grupo ao seu modo. Ora em ações de mera resistência, como por ocasião da instauração do inquérito na Polícia Federal contra os Editores do Lampião, ora em iniciativas transformadoras - seja nos campos normativos, seja no simbólico. Naqueles, são exemplos a alteração no Código de Ética dos Jornalistas, de modo a impedí-los de continuar a participar impunemente do processo cotidiano de aviltamento das pessoas de orientação homoerótica; a derrubada do código 302.0 do antigo INPS, que classificava a homossexualidade como desvio e transtorno psicossocial; a participação no processo constitucional, ao apresentarem sua demanda pelo direito à não-discriminação perante o Congresso Constituinte. Dão início a ações de caráter social e preventivo autocusteadas, construíndo por si próprios formas de proteção social, demonstrando senso de responsabilidade e compromisso com o coletivo. Dessas, são exemplo as iniciativas realizadas junto às travestis do Pelourinho, em Salvador, BA, pelo GGB e a publicação do caderno sobre DSTs pela Rede Um Outro Olhar, das lésbicas de SP.

Há aqueles que demonstram a compreensão de que a ação política deve ser promovida sobretudo no campo cultural e passam a disputar os espaços públicos, contrapondo os conteúdos representacionais negativos - até então não contestados.

Assim é que se verificam tanto a ousada ação do grupo Beijo Livre (GHBL), de Brasília, ao tentar entregar ao Papa João Paulo II, quando de sua visita ao Brasil, em agosto de 1980, uma carta respondendo à condenação da prática homossexual como "moralmente errada", feita pelo pontífice em Chicago (jornal Movimento, nº 268, agosto de 1980), quanto as sistemáticas iniciativas do Grupo Gay da Bahia, o GGB, com ações de grande efeito midiático, como o Ato Público de abertura do "ANO NACIONAL GAY", assistido por "cerca de 100 mil pessoas" na Praça Castro Alves (O Globo, 14/02/1984) e as Sessões pelo Dia do Orgulho Gay, promovidas pela Câmara Municipal da cidade do Salvador, BA, através de requerimento firmado pelo vereador Raimundo Jorge, do PMDB de então (A Tarde, 28/06/1984, O Globo, 29/06/1984).

Em 14/01/1984, "apesar dos insultos, agressões e ameaças feitas por telefone de que 'um atentado fará correr sangue dos participantes', realizam em Salvador, sob a organização do GGBB, o II Encontro Nacional. Em sua abertura, cujo tema principal era "as Várias Faces da Discriminação contra os Homossexuais", o presidente daquela entidade afirmava que "nos últimos dias, o telefone para informações, divulgado pela imprensa, tocava a intervalos de 15 minutos. 'Não se tratava de gente interessada em participar, mas sim em fazer ameaças e insultar os organizadores'" (O Dia, 15/01/1984).

De maneira alguma, porém, devem ser confundidos como um bloco uniforme. Entretanto, mesmo aqueles que, por exemplo, rejeitam a afirmação identitária como algo estanque, cristalizado – postura que somente nos anos 90, com Judith Butler, passaria a ter consistência teórica, tomando ares de novidade [“Uma das características que diferia o AUÊ dos outros grupos brasileiros estava em que ele foi o primeiro a não aceitar uma ‘identidade’ homossexual, aprofundando a discussão e a crítica à falsa dicotomia que divide os seres em dois. Gente deveria poder apresentar quaisquer tipos de comportamento, sem que com isso fosse posta em dúvida sua identidade sexual masculina para os homens ou feminina para as mulheres. Passou-se então a usar a palavra homossexual apenas como adjetivo de comportamento e jamais como classificação de pessoas.” (MÍCCOLIS, op. cit., p. 100-101.)] –, reconhecem a necessidade da existência de um movimento em defesa dos direitos dos homossexuais.

Na razão direta da existência, primeiro, da crença, no âmbito da sociedade, desses seres diferentes – os "homossexuais" [“Uma vez me perguntaram, numa entrevista: ‘o que é ser lésbica?”, e eu respondi, sem pestanejar: ‘deve ser um ser estranho, tipo marciano. Eu nunca vi uma.” (MÍCCOLIS, págs. 73, 75 e 76.)].

Segundo, da desqualificação exercida pela sociedade sobre esses seres que ela (sociedade) afirma que existem e que eles, os acusados de serem, terminam por acreditar sê-los:

“A luta do MH [Movimento Homossexual] não era (nem é) para só abolir leis repressivas, nem para integrar os ‘coitados’ na sociedade ou criar leis antidiscriminatórias; seu objetivo principal é a transformação da mentalidade da sociedade como um todo, para que haja mais prazer em tudo o que se faz, para que se respeite as diferenças de comportamento, sem que por isso a pessoa seja discriminada como doente, anormal, tarada, pecadora. A luta não é – como erroneamente se supõe – em prol dos ‘direitos homossexuais’ mas da liberdade humana, porque não adianta apenas a mudança de um regime político.” (MÍCCOLIS, pág. 79)

Não se tem um só registro de grupos surgidos na esteira do Lampião da Esquina e do Somos/SP defendendo uma postura não política - mesmo entre os mais libertários, de inspiração mais fortemente anarquista.

Assim também se expressa o Grupo Beijo Livre, de Brasília, o objetivo da luta "é eminentemente político", conforme afirma Alexandre Dumas, professor de inglês, correspondente do Lampião e um de seus integrantes. Nascido "da falência das idéias da esquerda de que bicha não gosta de política", sendo "tachados de frescos, reacionários, que só querem saber de plumas e paetês", Dumas declara que, embora não dispensem a alegria e o brilho, "não é só isso que consideramos importante": "Não queremos entrar no jogo de dividir a oposição, mas temos reivindicações específicas que não são incluídas em nenhum outro programa político. ... Nós também somos contra a ditadura e a nossa participação política foi e continuará sendo demonstrada em diversas ocasiões, seja comparecendo aos atos públicos ou assinando um abaixo-assinado. ... Consideramos que a nossa luta também é prioritária. Mas então por que não integramos um partido político? Até poderíamos ser aceitos, mas seríamos manipulados por quem não é homossexual, o que seria paternalismo." (Jornal Movimento, agosto de 1980, p. 19)

Conservam, porém, dentro de si a vasta diversidade inerente ao humano - de desejos, práticas, classe, posição, etnia, identidade, visão de mundo, concepção política e religiosa. E têm de aprender, eles próprios, a lidar com elas - com todas elas.

E ainda estão aprendendo - como aliás, toda a sociedade. - Que bom!


(Este artigo foi escrito a partir dos trabalhos acadêmicos de minha autoria: Dez Voltas Ao Redor Do Sol – A Emergência do Homossexual Como Sujeito Político, Qualificação ao Mestrado, ESS/UFF, março 2006; De Abomináveis e Enfermos a Sujeitos Demandantes: A luta simbólica dos “homossexuais” por ressignificação social e jurídica no Brasil - Uma proposta de abordagem (1978 – 2008), trabalho de curso: Sociologia da Cultura, PPGCS/UERJ, Doutorado, agosto 2008; e A Irrupção do Impensável ou A Luta Simbólica dos Homossexuais por Reconhecimento Sociojurídico no Brasil, trabalho de curso: Metodologia IV: Os sentidos da História: tempo, narrativa e memória, Doutorado, ICHF/UFF, janeiro 2009.)

9 comentários:

RICARDO ROCHA AGUIEIRAS disse...

Que texto magnífico!Rita, emocionado com esse resgate seu e tantos depoimentos importantes. E pensar que os que condenam a gente chamam tudo isso de "auto-ajuda". Para eles, o somos e tudo o que você fala aqui não passou de "auto-ajuda"... sempre vão encontrar argumento para a desqualificação, isso só irá parar se nos contituirmos num partido... de esquerda, de preferência. Em vez de resgatarem o velho e os referenciais de memória, tentam destruir e apagar tudo.
Obrigado, Rita

Anônimo disse...
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famettig disse...

Otimo resgate! parabens! nao me lembro de ter declarado na materia do globo de 84, no dia do orgulho gay, que eu era a estrela da noite... abraços, Rita, e continue nesta garimpagem!
Luiz Mott

Míriam Martinho disse...

Rita, que bom vê-la retomar o blog. Já estava pensando que tínhamos falido...rsss
Excelente artigo. Não fique tanto tempo sem postar. Não tire férias tão prolongadas. Beijoca.

Míriam

R.Colaço disse...

É Míriam, mas acabou que não se está a cumprir a ideia original, que era de recuperação, registro e divulgação das inúmeras memórias por aí dispersas d@s partícipes desse fazer coletivo, não é mesmo?
- Aguardemos que a qualquer momento alguma das meninas já cadastradas como colaboradora nos brinde com os relatos de suas experiências - ou mesmo qualquer d@s outr@s, que ainda não fazem parte...
Enquanto isso, só nos resta manter a jangada no mar e em movimento! (risos)
Agradeço a você por estar colaborando com a navegabilidade, principalmente nesses meses últimos.
Bjs
Rita

Míriam Martinho disse...

Rita,
não creio em colaborações outras. Mexer com a memória de tempos idos com espírito tão distinto dos modelitos atuais não interessa a muit@s. Basta ver a reação inacreditável de censura, em listas feministas,contra a entrevista que dei ao site A Capa com o Agueiras. A entrevista remete a um fato passado que parece ter o poder de assombrar umas e outras.
Acho que esse resgate a que se propôs aqui só vai ser feito mesmo por quem não tem o rabo preso com o os esquemas atuais. Espero que persista. Sempre que der, ajudo. Bj, Míriam

Paul Beppler disse...

Estimada Rita, pra um brasileiro originalmente interiorano, e há muitos anos radicado no exterior, poder ter acesso à detalhes da história do Movimento Homossexual Brasileiro como apresentados em seus escritos é de uma valia incomparável. Muito obrigado por compartilhar tudo isso, é muito importante mesmo coletar e viabilizar o máximo possível de relatos e registros históricos, não só pra gente aqui e agora mas principalmente para as futuras gerações. É aquele velho ditado, que diz que a situação fica triste pra quem não sabe de onde veio, não conhece o seu presente, e nem sabe pra onde quer ir... Brava, brava, bravíssima, querida Rita!!! --Paul Beppler

R.Colaço disse...

Paul, como você acompanhou, a idéia é de participação, construção coletiva.
Esperemos que outr@s atores e atrizes venham somar nessa proposta.
Vamos tocando como possível enquanto isso, com a fundamental colaboração da Míriam e muito graças a retornos como esse seu.

Valeu pelo incentivo!

Abs
Rita

bolacharecheada disse...

Rita, maravilhosa a iniciativa do Blog.
Memória anda muito em falta na cultura brasileira. Acho importantíssimo conhecer detalhes da história e resgatar os passos dessa caminhada.

Xêro!
Mallika