domingo, 12 de julho de 2009

Tópicos sobre a história (ainda em fase de recuperação) do MHB/MLGBT

A história disponível dos primórdios do movimento Homossexual Brasileiro é constituída, sobretudo, a partir de São Paulo – uma leitura sobre o Somos/SP, realizada através de observação participante, pelo antropólogo Edward MacRae; uma leitura sobre o movimento, realizada pelo jornalista, escritor e um dos fundadores do Somos/SP e do jornal Lampião da Esquina, João Silvério Trevisan. Do Rio de Janeiro, tem-se uma leitura sobre o Triângulo Rosa, elaborada por Cristina Câmara. Também se tem relatos de algumas trajetórias de personagens fundadoras, através do trabalho em história oral elaborado por Cláudio Roberto da Silva.

Esse estado das pesquisas sobre a primeira década do MHB/MLGBT tem levado a que se leia todo o movimento a partir da realidade verificada em São Paulo. Tal tendência já fora apontada por Regina Facchini, quando de sua pesquisa sobre o Corsa/Campinas, SP, e a “terceira onda” do movimento (o seu Sopa de Letrinhas, publicado em 2005).

No recém editado Na Trilha do Arco-Íris, de Júlio Assis Simões e Regina Facchini, construído numa moldura menos acadêmica e mais de divulgação, os autores trabalham a partir da bibliografia já constituída.

As memórias de Leila Míccolis, uma das fundadoras do Somos/RJ e Auê/RJ e colaboradora do Lampião, publicadas no Jacarés & Lobisomens, de parceria com Herbert Daniel, não tem figurado no debate construído até o presente.

O GAAG, primeiro grupo majoritariamente de mulheres, com predominância de negras e mulatas (hoje afrodescendentes) e oriundo das camadas populares, também registrado no ensaio de Míccolis sobre o MHB, vai merecer mais do que simples menção de seu nome apenas no trabalho de Câmara (2002, 51-52).

Em termos de fontes, os acervos documentais de quase a totalidade dos grupos surgidos no alvorecer do MHB encontram-se sem localização e os relatos de seus integrantes, não colhidos. Com exceção do acervo existente no Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp, composto pelos fundos do jornal Lampião, Grupo Gay da Bahia, Triângulo Rosa e João Antonio Mascarenhas, os demais acervos conhecidos não se encontram ainda levantados, catalogados e sistematizados – o da Rede de Informação Um Outro Olhar; o de João Antonio Mascarenhas (parte, qual?), depositado no Grupo Arco-Íris (segundo Cláudio Nascimento); e o do grupo Atobá/RJ. Sem falar que os relatos colhidos, após sua utilização pelo pesquisador que os solicitou, não são depositados nas instituições de pesquisa originárias do trabalho (semelhante hipótese inexiste enquanto prática institucionalizada) – o que faz com que se tornem impossíveis de serem pesquisados por outrem. O exemplo mais emblemático compõe os depoimentos colhidos por Câmara para a elaboração do seu trabalho sobre o Triângulo Rosa: indisponibilizados na instituição (pública) de origem do trabalho, tornaram-se privativos: não é possível nenhuma releitura daquelas fontes, sob outras problematizações - por exemplo, para se investigar acerca dos participantes do TR que tinham inserção partidária no PT e da questão da origem/posição social - seus integrantes originários da Baixada Fluminense foram, ao que parece, a maioria.

Ao que tenho notícia, mesmo o acervo disponível para consultas não foi ainda objeto de pesquisas aprofundadas. Em que pese a crescente visibilidade que a questão do reconhecimento dos direitos de lésbicas, gays, travestis e transexuais tem merecido e as linhas de financiamento acessíveis às ongs lgbts, sobretudo nos últimos cinco anos, aproximadamente.

Como pode se verificar, apenas um dos trabalhos acadêmicos realizados é oriundo do campo historiográfico – em História Oral, abordando trajetórias individuais (Silva, 1998.

É na moldura desse quadro que venho comentar o artigo de Miriam Martinho, intitulado A questão político-partidária e o MHB/MLGBT e publicado no dia 05 último em seu blog(http://contraocorodoscontentes.blogspot.com/).

Ali a autora afirma que “a questão político-partidária, na década de oitenta, foi relativa apenas ao evento do racha do Somos (17/05/1980)”; compondo “um evento isolado” (destaquei). Isto é, que as discussões a respeito de participação ou não em instituições partidárias e/ou políticas no sentido estrito (tipo entidades ideológicas como a Convergência Socialista) teriam se restringido aquela vivenciada pelo Somos/SP e a CS. Também afirma que a “a questão da identidade homossexual é que de fato pode se configurar como a questão da década de oitenta” (destaquei).


Dando continuidade ao projeto de recuperação dessa história (tanto quanto possível) -que é de tantos, e não apenas de seus militantes individualmente ou de pesquisadores (acadêmicos ou não), trago minhas considerações sobre esses dois pontos centrais no texto de Miriam, aguardando outr@s interessad@s – personagens e/ou pesquisador@s – venham se somar a esse projeto que é, ele também, coletivo.

De minha perspectiva, afirmo que as discussões sobre participação ou não de integrantes do MHB concomitantemente em agremiações partidárias não se circunscreveu apenas aquela experiência – fatídica – envolvendo o Somos/SP e a Convergência Socialista.

Ela esteve presente, por exemplo, quando da candidatura de Herbert Daniel, no interior do Triângulo Rosa, inclusive contribuindo para a eclosão do Atobá, em 28/06/1986 (JB, p. 6, 1º cad.).

Ao contrário da leitura de Rodolfo Skarda, então participante do TR, o Triângulo não se partidarizou ao apoiar a candidatura de HD. Vejam-se Câmara, 2002, 53: “[Rosa] frisou, ainda, a importância do grupo ser sempre autônomo com relação aos partidos políticos”.

Sobre a questão identitária – defender ou não a necessidade de uma identidade homossexual –, igualmente trago perspectiva diferente da de Miriam.

Embora num primeiro momento ela afirme, como transcrito acima, que “a questão da identidade homossexual é que de fato pode se configurar como a questão da década de oitenta” (destaquei), um pouco mais adiante ressalta que “Outros, como o GGB e o Triângulo Rosa parecem ter passado ao largo da polêmica, se bem que não inconscientes do assunto”. Mais adiante, diz que “o tema da identidade vai permear as interações da década de oitenta (ou permanecer subjacente a ela), entre os sujeitos políticos de então, só diminuindo sua influência com o renascimento do MHB no início da década de noventa”.

Concordo com Miriam de que ela não foi preponderante, por exemplo, no Triângulo Rosa, como pode ser constatado na fala de Pedro, um de seus fundadores: “uma discussão sempre presente nos grupos gays era a busca por uma definição da homossexualidade, mas no caso do Triângulo Rosa esta não foi uma prioridade”. Também na de outras personagens, presentes no livro de Câmara (Câmara, 2002, 42, 36, 58, 76-81). Colocada em votação, foi vencida, como superada, não relevante (idem, 75-76).

Não tive, até o momento, acesso ao acervo do GGB, não podendo tecer considerações sobre como este enfrentou ou não o tema. Discordo, porém, de que tenha se mantido como preeminente por toda a década.

Tendo mais a defender o ponto de vista de que a preponderância desse tema tenha se dado até a primeira metade dos anos 80, não na totalidade da década, quando o movimento passa por uma transição, surgindo outros grupos – como o TR e o Atobá –, outros temas e outras estratégias de militância.

Somente, porém, com a ampliação nas pesquisas, com a sensibilização de outr@s ator@s históric@s a fornecerem ou registrarem seus relatos, socializarem as fontes documentais e/ou iconográficas de que disponham – seja via sítios, blogs ou doações a acervos já constituídos -, é que poderemos vir a ter uma visão mais abrangente daquela primeira década do Movimento Homossexual Brasileiro.

3 comentários:

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Acho que muitos e muitas de nós, do início, não sabemos mesmo tudo o que ocorreu em outras metrópoles e grupos de outros estados. Não existia a preocupação em preservar documentos, já que a nossa preocupação primordial era impedir o boicote, divulgar reflexões e, de uma maneira bem intensa, se afirmar, se impor. Mais pesquisas são primordiais. Seria muito legal se os/as militantes dessa época e dos anos oitenta, que sobreviveram, fossem encontrados para falar e darem a sua versão dos fatos. De todo o modo, seus alertas, Rita, sempre muito bem vindos.
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Rita Colaço Brasil disse...

O comentário do ativista Ricardo Aguieiras informa que os integrantes do Grupo Somos/SP não foram inertes quando do episódio envolvendo a Convergência Socialista.

Segundo ele, chegou-se inclusive a considerar ações de represália contra o integrante notoriamente referido como agente causador das ações de cooptação.

Desconheço quem, do Somos/SP, tenha aderido à CS que possa dar a sua perspectiva dessa questão. Temos até o momento registro de relatos de um lado apenas – o daqueles que se posicionavam contra adesões a partidos/ideologias políticas capazes de comprometer a autonomia e independência do movimento.

Disse-nos Aguieiras: “quero registrar que, como podem ver, em nenhum momento nós fomos apáticos perante a ameaça verde e da Convergência, foi realmente uma luta sem sabermos qual seria o resultado. Existia em nós muito medo, sim, tanto do Senhor Verde quanto das artimanhas de seu grupo político. Então, o que foi decidido entre nós, numa reunião secreta, foi o racha e a carta d
de rompimento e denúncia. Secreta por que sabíamos que se o outro lado soubesse antes, encontraria uma forma de boicotar e de esvaziar a nossa ação, ele já tinha boicotado toda a nossa proposta mesmo...
João Silvério Trevisan, inicialmente, não concordou com o racha. Disse que "estávamos entregando o Somos de bandeja ao inimigo", dado a força com que acreditávamos em nossos sonho e nossos desejos.
Dois, para mostrar que mesmo que a palavra "ética" ainda não estivesse em moda como hoje, nossas ações e reflexões já eram norteadas por esse princípio e a delação não foi feita por ir totalmente contra nossas propostas e sentimentos.
Mas, hoje, tantos e tantos anos depois, sinceramente, não sei se não deveria ter feito...
Beijos,
Ricardo”