sábado, 19 de setembro de 2009

revista virtual auxilia a recuperação da memória do MHB/LGBT

O sítio A CAPA publicou interessante entrevista com dois dos mais antigos ativistas do MHB - Ricardo Aguieiras e a colaboradora deste blog, Míriam Martinho.

Parabenizamos a iniciativa de A CAPA, exortando-os a que deem curso à iniciativa, tão necessária para a recuperação da memória histórica daqueles primeiros anos de luta.

Em homenagem não só à Capa e aos ativistas entrevistados, mas, sobretudo, aos leitores e pesquisadores, trouxemos a matéria para este blog, cumprindo, assim, também com os objetivos da criação e existência deste blog: - reunir, recuperar, socializar a memória do MHB/LGBT.

Mais uma vez, parabens aos editores de A CAPA pela iniciativa. Confira a matéria na íntegra, com fotos do acervo da Um Outro Olhar, instituição coordenada pela Míriam Martinho:

"Ativistas falam sobre Stonewall brasileiro
Por William Magalhães* 27/6/2009 - 11:20"

http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=8600

"Durante o mês de junho e - em especial - toda essa semana, o site A Capa publicou uma série de reportagens sobre o levante de Stonewall assinadas pelo jornalista carioca Victor Barroco. A cobertura é oportuna, pois vem no momento de comemoração de 40 anos do ato, e começou a ser pensada em dezembro de 2008, quando o repórter esteve na cidade de Nova York. Victor teve a oportunidade de conhecer ativistas que participaram do acontecimento que marcou o início do que conhecemos hoje como movimento gay moderno e deu origem inclusive às Paradas do Orgulho LGBTs.

Pensando em atos históricos brasileiros que podem ser comparados à manifestação de Stonewall, a reportagem do site procurou dois ativistas do movimento gay que estiveram em momentos importantes para a garantia de direitos em terras tupiniquins. Resgatamos então por meio de duas entrevistas, realizadas por e-mail esta semana, a história da ocupação do Ferro's Bar, um dos, senão o único, point lésbico na capital paulista em meados da década de 70/80.

Sem mais delongas, então, com a palavra Miriam Martinho e Ricardo Rocha Aguieiras.


Quando o Ferros Bar começou a ser frequentado por lésbicas?
Miriam Martinho: No início da década de 60 (1963, por aí).

Ricardo Rocha Aguieiras: Desde o inicio da militância, em 1978, o Ferros já tinha o público lésbico na sua clientela, mas somente à noite.Sinceramente, não sei o motivo. Nunca se soube o por que de determinadas casas caminharem para isso, talvez a proximidade com a boate SKY, e a Bus Stop, ambas na Rua Santo Antonio, alí perto do viaduto onde existia o Ferros e já conhecidas como casas voltadas para as meninas. Sem contar que era um local tão perto da já famosa Augusta.

Pelo que consta o bar durante o dia era frequentado por famílias e senhores. Como passou a virar point lésbico?
MM: O bar sempre teve um histórico meio marginal, pois, a princípio, foi um ponto de encontro da boemia artística, de atores principalmente. Depois, segundo consta, passou a ser frequentado por gays, por um período, e por fim pelas lésbicas. Mas não sei como virou point lésbico, talvez porque algumas tenham ido por lá com amigos gays e foram ficando. E de fato, durante o dia, a frequência era de gente que trabalhava na redondeza, famílias inclusive. No final de semana, principalmente depois da invasão, as lésbicas também passaram a aparecer durante o dia.

RRA: Sim, é verdade. Durante o dia o bar funcionou , por anos e anos, como um espaço comum e (risos) "respeitável". Lembrando que era quase em frente à uma bela sinagoga que tem lá até hoje. Volto à minha teoria, como já tinha algumas boates lá perto, as les tinham que "fazer hora", esperando as casas abrirem. E foram tomando conta do local.


Por que o dono do Ferros não deixou o Chana com Chana ser distribuído?
MM: Preconceito puro. Ele permitia que se vendesse de tudo por lá, mas resolveu implicar com o boletim.

RRA: Penso que o nome do jornal era "provocador" demais para a época, remetia diretamente ao ato sexual entre duas mulheres. Elas não tinham o medo de transgredir. E o dono do Ferros estava com medo por causa dos ataques da polícia , medo de bagunça, quebra-quebra e essas coisas...

Ele era tolerante com o público lésbico ou estava interessado apenas no dinheiro?
MM: Estava fundamentalmente interessado no dinheiro, claro, mas o tratamento não era dos melhores. Se até hoje ainda somos cidadãs de segunda, imagine naquela época.

RRA: Essa resposta é difícil de ser dada até hoje, porque um empresário ou dono de negócio LGBT têm todo o direito de querer lucrar com sua empresa e nunca irá assumir publicamente se seu interesse for apenas financeiro. Pode ser ou não. No caso específico, eu não acredito que o interesse fosse apenas grana, ele tinha uma simpatia pelas meninas e demonstrava compreensão. Lembro, inclusive, que pediu desculpas pela expulsão das meninas, depois.... Isso é bonito, não? Mas acho que o problema maior alí era o porteiro - que sabia identificar muito bem quem eram as meninas militantes , que não deixava entrar, das que não eram, que eram apenas clientes "comuns"... ; porteiro esse movido pelo seu machismo e sua "pequena autoridade", coisas tão comuns.

Você esteve no ato no Ferro's? O que você lembra sobre o levante? Pode descrevê-lo?
RRA: Sim. Não tenho fotos, mas sei que a Miriam Martinho tem.

MM: Sim, estive. Lembro que tive muito medo da polícia aparecer e nos levar presas. Tive medo da imprensa também. Não era muito confortável aparecer nas páginas dos jornais na época. Mas organizamos tudo de forma a minimizar os riscos: chamamos os grupos gays da época e algumas feministas para dar apoio. A vereadora Irede Cardoso foi uma das parlamentares pioneiras no apoio aos direitos homossexuais no Brasil, pedimos cobertura da OAB, chamamos a imprensa.

Chegamos no dia 19 de agosto e tentamos entrar no Ferros. O porteiro fechou a porta para que a gente não entrasse. Passamos a conversar com as mulheres que estavam do lado de fora do bar, juntamos gente, mais os grupos que estavam dando apoio, tentamos de novo. O porteiro enfiou a mão na cara de uma das integrantes do GALF, pela porta entreaberta. Um homem aproveitou e jogou fora o boné do porteiro, ele se distraiu e entramos todos. Foi realmente uma invasão.

A Rosely Roth subiu numa cadeira, começou a explicar o porquê do protesto, fez o maior sucesso, ganhou aplausos. Ovídio Vieira/Acervo Um Outro Olhar



A vereadora Irede Cardoso foi intermediar a rendição do dono do bar, e ele por fim prometeu que nos deixaria vender em paz o boletim. E cumpriu o acordo. Nesse link, vc pode ler a matéria produzida por uma das integrantes do Galf sobre a manifestação.

A imprensa noticiou a invasão do Ferro's?
RRA: Sim, e estranhamente, sem preconceitos.

MM: A Folha de São Paulo cobriu o evento, e a matéria, do Carlos Brickman, foi replicada por outros jornais.

Porque a invasão do Ferro's bar pode ser encarado como um Stonewall brasileiro? O que há de similar entre eles?
MM: Bem, pelo óbvio primeiro de ambas as manifestações terem se dado em bares frequentados por gays e lésbicas e por terem sido uma resposta ao preconceito e à discriminação. No Ferro's, o dono também chamou a polícia para nos escoltar para fora em uma de nossas tentativas de vender o boletim antes da manifestação. Outra vez, o segurança e o dono literalmente nos empurraram para fora. Mas como a gente era mosca de bolo, sempre voltava, só que os ânimos foram ficando acirrados, e aí partimos para a manifestação.

RRA: Respeitando as devidas proporções, foi uma vitória. E cabe às Les. A polícia veio, sem o Richetti, e nada de ruim fez, até ouviu argumentações das lésbicas, militantes e simpatizantes. Não houve a violência de Stonewall, mas foi algo nosso. De similar há a busca por um mundo mais justo e a revolta perante o cerceamento de direitos. Ocorreu num bar de homossexuais e prostitutas e São Paulo também já era uma grande metrópole, como Nova York. Teve polícia e teve gente legal, enfim... tudo a ver.

O delegado dr. [José Wilson] Richetti também perseguia as lésbicas nesse período?
MM: O Richetti ficou mais famoso porque resolveu fazer uma campanha de limpeza nos pontos lésbicos, gays, de travestis e prostitutas, todos ao mesmo tempo, mas antes dele já era de praxe a polícia fazer batidas regulares nos bares lésbicos e levar as mulheres presas. E iam presas sem nenhuma acusação formal, passavam a noite na cadeia e eram soltas no dia seguinte. Eram presas porque eram lésbicas mesmo.

RRA: Sim, era uma figura odiosa. Se os anos 60 foram duros com as lésbicas e gays dos EUA, os 70 também, aqui no Brasil. Apesar de Richetti ter se dedicado mais ao massacre das travestis - afinal, eram (são? ) o elo mais sofrido, frágil da homossexualidade, e também a frente de batalha histórica.


O levante no Ferros aconteceu dois anos antes de uma passeata histórica que mobilizou gays, travestis, lésbicas, prostitutas, negros e punks a manifestarem-se contra as repressões arbitrárias do delegado Richetti que queria promover uma limpeza do centro da cidade. Acredita que essa passeata também pode ser comparada a Stonewall?

MM: Não, o levante do Ferro's aconteceu em 1983 (19 de agosto), e a passeata contra o Richetti em 1980 (13 de junho). A passeata também tem o espírito de Stonewall porque foi uma resposta contra a violência da polícia, embora tenha se dado nas ruas de São Paulo e não em bares, como o Ferros e o Stonewall Inn.



RRA: Toda revolta homossexual pode ser comparada à Stonewall, abriram espaços para a visibilidade e a discussão de direitos e de respeito. Foi saudável como Stonewall foi, era algo nosso, não tinha sido ainda cooptado por partidos ou por outros interesses ideológicos ou personalistas. Ou melhor, já tinha graves sinais de contaminação, sim, mas a gente ainda não percebia...


O Galf (Grupo de Ação Lésbica-Feminista), que editava o Chana Com Chana, é fruto do primeiro racha entre gays e lésbicas do Somos, certo? Por que ele continuou ao longo desses anos e como virou a Rede de Informação Um Outro Olhar?
RRA: Evidente que a Miriam Martinho poderá responder isso de forma melhor e completa. Quero apenas deixar claro uma coisa sobre esse "racha entre gays e lésbicas".Sim, ele existiu, nós, gays masculinos, nem tínhamos consciência do nosso machismo. No entanto, nunca - eu e nem o João Silvério Trevisan, o Zezé, o Tosta, o Emanoel e vários outros - víamos as mulheres como inimigas. ao contrário, foi justamente com esse "racha" e com as discussão que elas traziam que fomos desenvolvendo os nossos parâmetros e imaginação. foram aliadas nossas até mesmo no racha. Ao contrário do que ocorreu no Somos versus Convergência Socialista [que posteriormente virou o PSTU em 91, após um racha no PT] e James Green, que visavam somente a destruição e clara disputa de poder. E, claro, continuou exclusivamente pela competência e dedicação da Miriam; nunca haverá reconhecimento suficiente para tanto trabalho.

MM: O Galf foi, a princípio, um grupo de continuidade do coletivo que se separou do Somos, chamado LF (lésbico-feminista), mas que depois seguiu um rumo diferenciado. É que esses coletivos tiveram nomes muito parecidos, Grupo Lésbico-Feminista e Grupo Ação Lésbica-Feminista, e normalmente são confundidos. O Galf foi o único grupo lésbico que se manteve ativo durante a década de 80. A Rede de Informação Um Outro Olhar já e fruto de uma mudança ideológica e de eixo de atuação, além de ter se configurado como organização não-governamental logo no início. É uma outra história.

Qual era a chamada de capa do Chana Com Chana na época em que aconteceu a ocupação do Ferros?
RRA: Ummmmmm, Miriam poderá responder melhor essa, juro que não me lembro da chamada, desculpem...

MM: Ferros Bar, dia 19 de agosto: uma vitória contra o preconceito.

A invasão contou também com a presença de gays?
MM: Sim, com os gays do grupo Outra Coisa de Ação Homossexualista e do grupo Somos. Foi, aliás, a última manifestação conjunta desses grupos. No final desse mesmo ano, o Somos fecha as portas, e no início de 1984, o Outra Coisa segue o mesmo caminho.

RRA: Sim, além do já citado do Outra Coisa, tinha umas bichas finas e bem arrumadas. Mas não sei quem as chamou ou acionou, deve ter sido coisa do Zezé (risos) . Zezé foi uma pessoa amorosa e profundamente esperta, competente, fazia tudo a que se propunha.

Sente falta de uma publicação lésbica como o Chana Com Chana?
MM: Sinto mais falta de uma publicação como a Um Outro Olhar que deixei de publicar em 2002. Para mim, o Chana Com Chana seria muito datado para os dias de hoje, se bem que tem muita gente que ainda o curta, principalmente feministas.

RRA: Sinto. Falta de publicações, falta dos carros delas nas Paradas, queria elas bem próximas de nós, hoje. Mas estamos numa época difícil, não temos um só inimigo, mas vários e vários. Eu queria muito ter o referencial delas por perto, forte como foram. hoje, isso talvez seja um sonho.

Há mais retrocessos ou avanços na comunidade LGBT, desde o levante até hoje?
MM: Houve avanços indiscutíveis. Não sei de mais ninguém indo dormir na cadeia por ser lésbica. As mulheres se assumem na grande imprensa inclusive com suas companheiras e filhos. Novelinhas lésbicas passam na TV, como o [seriado] The L Word. Um monte de sites e blogs fornecem informações, serviços e apoios. É infinitamente mais fácil ser lésbica hoje do que na época do levante. Agora óbvio que ainda existe preconceito e discriminação e muita coisa por fazer, principalmente no terreno da equiparação de direitos.

RRA: Desde o levante, avanços. Mas , hoje, está tudo parado, amorfo. As listas de discussão estão paradas, as pessoas, um tanto cansadas. Não estamos conseguindo reverter o trágico quadro de assassinatos de homossexuais no Brasil, não conseguimos o casamento gay e nem o PLC 122, que criminaliza a homofobia. Somos mais visíveis e temos os nossos 15 minutos de fama. Mas é dolorido demais que, depois de tanta luta, as pessoas LGBT passando por coisas que nós passamos lá, no Levante do Ferros Bar, em 19 de agosto de 1983, mesmos motivos e mesmos impulsos... tem o fenômeno dos blogs, blogueiros/as realmente talentosos/as, temos jornalistas que também militam e possuem ideais. Mas temos o tédio, os variados oportunismos partidaristas, os discursos de cartilha...

* Colaborou Marcelo Hailer"
http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=8600

Um comentário:

Míriam Martinho disse...

Rita,

apenas um reparo. Quem aparece nas fotos da FSP, sobre a invasão do Ferro's, com o Antonio Carlos Tosta do Outra Coisa, é o Ricardo Curi, que atuava no grupo citado, quando este dividiu sede com o GALF. Havia uns 4 "ricardos" no Somos que depois se transplantaram para o OC, em seus primeiros momentos, o que gerou a confusão dos nomes, pois não havia a identificação dos sobrenomes. Pesquisando, com base em fotos e documentos do acervo da UOO, resgatei o nome do Ricardo Curi presente tanto no OC quanto na manifestação do Ferro's. Abs, Míriam