sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Brenda Lee e o seu "Palácio das Princesas": A travesti que inaugurou o serviço de apoio aos homossexuais expulsos de casa e aos soropositivos


Brenda Lee nasceu Cícero Caetano Leonardo, em Bodocó, Pernambuco, em 10 de janeiro de 1948. Aos 14 anos foi morar no bairro do Bexiga, na capital de São Paulo. Popular, logo ficou conhecida. Primeiramente por Caetana. Brenda Lee veio depois.

Como não se sentia bem com a prostituição, se empenhou em ter outra forma de renda. Em 1984 adquiriu o imóvel na rua Major Diogo, 779 e fez uma pensão.

"Além desse imóvel, tinha um posto de gasolina ou “mecânica”. Adorava carros e sempre brancos; e na frente do sobrado (que na realidade agora já estava com quatro andares de tanto inventar espaço, ficava o salão de beleza que as travestis usavam)."

Nesse imóvel Brenda acolhia as jovens travestis expulsas de suas famílias consanguíneas, em razão de sua homossexualidade - prática que resiste até os nossos dias. Após a série de assassinatos de travestis na região da Avenida Indianápolois e Chácara Flora, na Zona sul paulistana, em 1985, mais travestis foram acolhidas. Foi assim que surgiu o "Palácio das Princesas". Espontaneamente.

Brenda cuidava das jovens com afeto e carinho - "nutria carinho de mãe por elas", diz uma depoente. "Realmente era uma maezona", diz uma travesti que morou no Palácio durante a adolescência e que hoje vive e trabalha em Paris.

Lee viabilizou a migração de diversas travestis para a Europa, em busca de melhores condições de vida e renda. Fidelizada a uma mesma agência de passagens e turismo, a funcionária que sempre lhe atendia guarda ainda muito afeto desse convívio, que as tornou grandes amigas.


A AIDS já vinha forte, trazendo junto a explosão de preconceitos e irresponsabilidades. Na imprensa, jornalistas inconsequentes apelidaram-na de "Câncer Gay" e "Peste Gay".

Os primeiros doentes enfrentavam, além da enfermidade, a "morte social". Transformados em párias, lhes eram retiradas as possibilidades de convívio, de fruição de espaços públicos, de afeto e cuidado.

Ainda não havia o programa de fornecimento de remédios ou programas de apoio - essas foram conquistas da luta no enfrentamento da Síndrome.

Os médicos nada ou muito pouco sabiam sobre aquela doença misteriosa e tão desencadeadora de temores e fantasmas subterrâneos.

Gays e travestis, os primeiros doentes conhecidos, viam-se de uma hora para outra atirados no limbo, agigantado o repúdio social e familiar que comumente lhes era (e ainda é) destinado.

Algumas travestis amigas de Brenda começaram a aparecer doentes. Ela as acolheu. Outras vieram. Ela acolheu igualmente.

Travou contato com o Hospital Emílio Ribas. As que necessitavam, eram internadas. As que tinham que dar continuidade ao tratamento "em casa", não tinham "casa" para onde ir, nem parente que cuidasse delas.

Eram os "pacientes sociais" - aqueles que precisavam de tratamento, mas não de internação. Necessitavam de alimentação equilibrada, medicamentos, cuidados, afeto, acolhimento.

Justamente aquilo que os familiares consanguíneos não tinham nenhum desejo de lhes fornecer. O interesse se restringia aos seus patrimônios, acaso existissem.

Brenda abrigava a todas, como podia. Se preciso, em sua própria cama. Dava-lhes moradia, medicamentos, cuidado, carinho. Às suas expensas.

A "Mãezona" partiu para buscar ajuda por todo canto. E encontrou muita. Anônimos ou não, inúmeras foram as pessoas que se uniram para auxilliá-la em seu trabalho social. De travestis em Roma a apresentadores de programa televisivo no Brasil, passando por médicos, espíritas, pessoas comuns.

Na busca por recursos para melhorar as condições de acolhimento, participou de programas de televisão, palestras, eventos em casas de shows. Tudo enfim que em seu entendimento pudesse reverter em recursos para os doentes que acolhia. Em alguns foi traída e enganada - sempre há aqueles que se aproveitam do altruísmo e credulidade dos demais.

Segundo Trevisan, a Casa de Brenda "se tornou quase uma extensão do hospital Emílio Ribas e uma entidade fundamental para a rede estadual de saúde, no setor de Aids. ... O Brasil conseguiu montar uma rede de enfrentamento da Aids considerada modelar pela Organização Mundial de saúde. E isso se deveu, bem ou mal, à mobilização de homossexuais isolados ou em grupos de tendência GLS que lutaram, protestaram, ajudaram a organizar e puseram as mãos na massa" (Devassos..., pág. 369 da 3ª edição).

"Quem não ficava apaixonado pela Brenda?" - Dizem as pessoas que lhe conheceram. "Era como uma mãe". "O Anjo Bom da Aids". "Ela era uma menina, tinha sonhos de menina".

O seminal Palácio das Princesas terminou ficando conhecido como "Casa de Apoio Brenda Lee". Era o ano de 1986.

Em 1988 Brenda firmou convênio com a Secretaria de Estado de Saúde do Estado de São Paulo para acolhimento e cuidado de soropositivos, independentemente de gênero, sexo, orientação sexual ou qualquer outra distinção.

Em 1992 a Casa de Apoio Brenda Lee é formal e juridicamente constituída. Sua Ata de Fundação é registrada no 5º Ofício do Registro de Títulos e Documentos de São Paulo, sob o nº 12.864. Brenda figura como sua Presidente vitalícia.

Por mais de dez anos Brenda esteve à frente desse trabalho social voluntário, espontâneo, pioneiro. Fruto de seu entendimento pessoal da necessidade de comprometimento com a coletividade; da fraternidade e generosidade como valores a serem praticados cotidianamente.

Em 28 de maio de 1996, porém, Brenda foi encontrada morta, assassinada com tiros na boca e no peito, no interior de uma kombi, estacionada em um terreno baldio na Capital paulistana.

Segundo consta, um empregado da Casa adulterara um cheque emitido por Brenda, transformando o valor de R$ 150,00 em R$ 2.950,00. Ela registrou Queixa-Crime no 5º Distrito (Aclimação), indicando o seu suspeito.

Após receber um telefonema, Lee se dirigiu ao encontro marcado pelo autor do telefonema, com o fim de solucionar o caso do cheque - cuja cobertura não existia. Não foi mais vista com vida.

O imóvel onde se constituiu o Palácio das Princesas e depois a Casa de Apoio foi comprado de seus familiares, após a sua morte, pela Casa de Apoio Brenda Lee, Sociedade Civil, em fevereiro de 2000, através de um Instrumento Particular de Cessão de Direitos Hereditários e Dação em Pagamento. A quitação total do preço exigido por seus herdeiros consanguíneos se deu em 2002, através da colaboração "da comunidade, amigos e órgão público", segundo informações constantes na página da Casa.

Após a sua morte, a instituição passou a ser administrada por uma Diretoria Executiva, formada por 5 membros, em colaboração com um Conselho Fiscal de 3 e um Conselho Consultivo de 15.

As últimas notícias na página oficial da Casa de Apoio Brenda Lee datam de 2005 e falam da construção da Sede 2, por necessidade de ampliação dos serviços prestados.

Os moradores vizinhos à casa relataram, por ocasião de sua morte, que Brenda não se preocupava apenas com "aidéticos" ou travestis, "mas com todas as pessoas carentes do bairro."

Robson Alves Martins, o Robson Lee, então com 22 anos (e atualmente membro da comunidade em homenagem à Brenda no Orkut), declarou que Lee não se afastava da Casa por mais de duas horas e "sempre foi uma pessoa dedicada".

Quando foi assassinada, era Vice-Presidente da Casa o médico infectologista do Emílio Ribas, Rogério Scapini. Em seu velório ele declarou ao jornalista Laércio Arruda:
"Foram 10 anos de plena dedicação. Brenda sempre foi uma grande líder."
A missa de corpo presente foi celebrada pelo padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor, que veio representando o Cardeal Arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Eis o seu depoimento, na ocasião:
"Ela era uma pessoa especial e perdemos um símbolo da luta contra a Aids. ... [Precisa]mos nos apegar na beleza e na g[arra] de tudo que ela deixou para manter esta memória."

Sua morte encontrou a casa com entre 27 a 30 pacientes, todos com total assistência médica e social. Cerca de cem pessoas compareceram ao seu velório, realizado na instituição que criou.

Embora também tenha encontrado quem traísse a sua confiança e abusasse de sua credulidade, o seu trabalho tornou-se referência no cuidado aos portadores do HIV-Aids, sendo reconhecido nacional e internacionalmente. Há quem relate o fato de Brenda ter comentado haver sido indicada para o Nobel da Paz.

Um filme documentário foi produzido em 1988, dirigido por Pierre-Alain Meier e Matthias Kälin, abordando a vida de Brenda Lee e mais outras quatro travestis - Thelma Lipp, Condessa da Nostromundo, Andréia de Maio e Claudia Wonder. Chama-se Dores de Amor.

Um Prêmio em Direitos Humanos foi instituído com o seu nome no Brasil, há uma biografia sua na Wikipédia e uma comunidade foi criada no Orkut em sua memória.

Na página VivaSP, na seção Lendas Urbanas - A Cidade e Seus Personagens, há um tocante depoimento de uma voluntária que trabalhou por dez anos colaborando com Brenda em seu serviço social espontâneo.

Se você conheceu, trabalhou, morou na casa de Brenda Lee, tem material (jornalístico, fotográfico etc) sobre ela, mais detalhes de sua trajetória e deseja partilhar e dar o seu depoimento, por favor, escreva.

Esta é uma iniciativa de caráter coletivo.

Referências:
As fotografias utilizadas nesta postagem são oriundas da matéria de jornal de autoria do jornalista Laércio Arruda, digitalizada e postada no depoimento de Maria Asunción na página VivaSP. Ali não é possível identificar o crédito do repórter fotográfico, autor das fotografias.

http://www.brendalee.org.br/
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=21469278
http://vivasp.com/texto.asp?tid=3858&sid=9
http://vivasp.com/comentarios.asp?tid=3858
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brenda_Lee
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre-Alain_Meier
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dores_de_Amor
ARRUDA, Laércio. Polícia Caça matador do Travesti Brenda Lee. (matéria de jornal digitalizada e disponibilizada na página vivasp, sem que seja possível identificar qual o jornal e a data da publicação).
TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso. 3ª edição.

As recordistas de público