domingo, 28 de março de 2010

"FAZEI ISSO EM MEMÓRIA DELAS" - DELAS E DELES, DE TODOS

Em 26 de janeiro passado publiquei aqui uma postagem com o título A Questão Central da Memória.

Transcrevia trecho do editorial da revista Carta Capital, escrito por Mino Carta, edição de 20 de janeiro deste ano de 2010 onde defendia o direito à memória histórica do período ainda nebuloso e sempre escondido, da ditadura militar implantada em 1964.

Ao final da transcrição, recordava que a memória histórica é prioritária para todos os segmentos sociais, inclusive o composto por homossexuais, transexuais, travestis, intersexuais.

Também pode ser lido aqui, em postagem do dia 21 de março corrente, uma pequena biografia de Herbert Daniel, importante combatente pela solidariedade como resposta social ao obscurantismo e contra o preconceito (fosse aquele que vitimava - e ainda vitima - portadores do vírus HIV, fosse o que também ainda hoje atinge gays, lésbicas, travestis, transexuais, intersexuais). Ele foi um dos que lutaram contra o regime de exceção instaurado aqui pelos militares, com o apoio de parte da sociedade civil, financiado e treinado pelos Estados Unidos.

Herbert viveu cerca de seis anos como clandestino em seu próprio país. Depois, passou aproximadamente sete anos no exílio. Embora sejam experiências dolorosas, não se comparam às torturas - psicológicas e, sobretudo, físicas - que viraram política de Estado.

À parte a experiência de Daniel, desconheço outra qualquer pessoa homoerótica que tenha lutado contra a Ditadura. Não creio, porém, que seja ele o único caso.

Dos homossexuais perseguidos, torturados, assassinados nos campos de concentração nazistas tem sido possível recuperar parte da história. Dos que enfrentaram o regime ditatorial brasileiro de 64, não. Nada sabemos.

Quantas seriam essas pessoas? Quantas mulheres? É Fácil imaginar a razão para que não revelem a delicada questão da orientação sexual. - Daniel tornou-se assexuado, vez que o grupo político que integrava via a homossexualidade como "produto da decadência burguesa". Não foi anistiado e teve a leitura de sua carta, enviada de Paris, suprimida pelos camaradas no Congresso pela Anistia, porque era "apenas uma bicha".

Nada sabemos do sofrimento das lésbicas que igualmente devem ter participado da resistência (equivocada, fracassada, mas resistência). Podemos imaginar a amplitude se seus suplícios, caso seus torturadores tenham descoberto a sua orientação sexual, em razão daquilo que sabemos terem as mulheres sofrido - estas aliás, sempre que há disputas entre nações, tribos, facções, regimes ideológicos, são alvejadas em sua sexualidade, em seu corpo erótico e reprodutivo. Terão tombado, junto a tantas que perderam suas vidas?

"Elas [as mulheres] estiveram em todas as frentes da resistência. Foram muitas as que optaram pela luta armada e, sem que se julgue aqui o mérito de suas escolhas ideológicas e políticas, empunharam armas e foram literalmente à luta. Outras muitas, ainda que sem armas, colocaram em risco suas vidas e as de seus filhos e maridos ao estabelecerem também as suas estratégias de luta. Outras tantas já não estão entre nós para contar suas histórias. Ousadas demais, foram silenciadas." (Trecho do livro Luta, Substantivo Feminino, pág. 16. Destaques de minha autoria).

É, portanto, para registrar essa lacuna, esse vazio na história recente de nosso país que ainda persiste malcontada, suprimida, escondida, desvirtuada, que transcrevo trecho da postagem do sítio Taqui Pra Ti, de autoria de José Ribamar Bessa Freire, professor da UERJ e UNI-RIO, que trata do livro recém lançado na PUC-SP - LUTA, SUBSTANTIVO FEMININO -, contendo diversos relatos de tortura sofrida por presas do regime militar:

"São muitos os depoimentos, que nos deixam envergonhados, indignados, estarrecidos, duvidando da natureza humana, especialmente porque sabemos que não foi uma aberração, um desvio de conduta de alguns indivíduos criminosos, mas uma política de Estado, que estimulou a tortura, a ponto de garantir a não punição a seus autores, com a concordância e a conivência de muita gente boa “em nome da conciliação nacional”.

No lançamento do livro na PUC, a enfermeira Áurea Moretti, torturada em 1969, pediu a palavra para dizer que a anistia foi inócua, porque ela cumpriu pena de mais de quatro anos de cadeia, mas seus torturadores nem sequer foram processados pelos crimes que cometeram: “Uma vez eu vi um deles na rua, estava de óculos escuros e olhava o mundo por cima. Eu estava com minha filha e tremi”.

Os fantasmas que ainda assombram nossa história recente precisam ser exorcizados, como uma garantia de que nunca mais possam ser ressuscitados – escreve a ministra Nilcea Freire, ex-reitora da UERJ, na apresentação do livro, que para ela significa o “reconhecimento do papel feminino fundamental nas lutas de resistência à ditadura”.

Este é o terceiro livro da série ‘Direito à Memória e à Verdade’, editado pela Secretaria de Direitos Humanos (SEDH) em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. O primeiro tratou de 40 afrodescendentes que morreram na luta contra o regime militar. O segundo contou a “História dos meninos e meninas marcados pela ditadura”. Eles podem ser baixados no site da SEDH.

O golpe militar de 1964 que envelhece, mas não morre, completa 46 anos nos próximos dias. Essa é uma ocasião oportuna para lançar o livro em todas as capitais brasileiras. No Amazonas, as duas reitoras – Marilene Correa da UEA e Márcia Perales da UFAM - podiam muito bem organizar o evento em Manaus e convidar a sua colega Nilcea Freire para abri-lo. Afinal, preservar a memória é um dos deveres da universidade. As novas gerações precisam saber o que aconteceu.

A lembrança de crimes tão monstruosos contra a maternidade, contra a mulher, contra a dignidade feminina, contra a vida, é dolorosa também para quem escreve e para quem lê. É como o sacrifício da missa para quem nele crê. A gente tem de lembrar diariamente para não ser condenado a repeti-lo: fazei isso em memória delas. José Ribamar Bessa Freire" (destaques de minha autoria)
Você pode baixar o livro completo através do sítio da SEDH. Também pode adquirir ou alugar o DVD QUE BOM TE VER VIVA, de Lúcia Murat, produzido pela Taiga filmes. Ou mesmo ARAGUAIA: A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, de Ronaldo Duque, distribuído pela Paris Filmes.

Assista, leia, divulgue, empreste, utilize como material pedagógico em aulas e oficinas.

Apenas preservando nossas memórias, repassando-as às novas gerações, teremos alguma garantia de que os mesmos erros não se repetirão. Por elas, por eles, por nós, pelos que virão.


Créditos:
As fontes referidas encontram-se lincadas.
Agradeço a Luiz Antonio de Oliveira o haver socializado a íntegra do artigo de José Ribamar Bessa Freire, bem como a sua fonte, na listagls.

sábado, 27 de março de 2010

SEQUÊNCIA DE APARIÇÃO DOS GRUPOS HOMOSSEXUAIS NO RIO DE JANEIRO ATÉ ANOS 1980

Ainda constata-se o desconhecimento de muitos, inclusive e sobretudo de aguerridos ativistas da atualidade, sobre os primórdios da história do Movimento Homossexual Brasileiro, hoje denominado movimento LGBT.

Ontem verifiquei mais um dos incontáveis equívocos: - Dizia-se ser o Atobá, de Magalhães Bastos, o primeiro grupo surgido no Rio de Janeiro.

Não é verdade.


Os primeiros grupos, surgidos entre 1979 e a década de 1980, em defesa do direito à livre orientação sexual (o que equivale dizer direito a NÃO ser estigmatizado, alvo de violência cotidiana, multiforme e da parte de pluriagentes em razão da orientação e/ou identidade de gênero), foram:

O GAAG (Grupo de Atuação e Afirmação Gay), de Duque de Caxias, fundado em Julho de 1979 FOI O PRIMEIRO GRUPO A EXISTIR NO RIO DE JANEIRO. Compunha-se majoritariamente por LÉSBICAS (havia um ou dois gays) e negras. Naquela época, porém, ninguém dentre seus integrantes se dava conta disso, porque não eram questões que estivesem colocadas para aquelas pessoas).

Isto já foi objeto de postagens aqui em dois momentos:
em http://memoriamhb. blogspot. com/2009/ 04/gaag-o- primeiro- grupo-nascido- no-rj.html

e também em http://memoriamhb. blogspot. com/2009/ 04/gaag-segundo- leila-miccolis. html).


Depois vem o Somos/RJ, em 15 de Setembro de 1979. Também objeto de postagem neste blog: http://memoriamhb. blogspot. com/2009/ 04/em-15091979- surge-o-somosrj. html.

Em seguida, vem o Auê/RJ (racha do Somos/RJ), em Dezembro de 1979;

posteriormente vem o Bando de Cá/Niterói, em Agosto de 1980;

segue-se um Grupo Arco Íris, em 1983 (sim, há registro de um grupo com este nome na década de 80!); e, dois anos depois,

o Grupo Triângulo Rosa, em 1985;

e somente então o Atobá, em 28/06/1986, conforme também registrado aqui: http://memoriamhb. blogspot. com/2009/ 07/topicos- sobre-historia- ainda-em- fase-de.html.

UM PEDIDO: Se você participou de algum/ns desse/s grupo/s, tem qualquer material ou conhece alguém que dele/s tenha participado, por gentileza, contacte-me ou peça a/ao seu/sua conhecido/a para entrar em contato.

quinta-feira, 25 de março de 2010

VII EBGL, 1995: OPINIÕES SE DIVIDEM

Nós humanos somos movidos à emoção. Nos dizemos de nós seres racionais. No entanto, melhor seria dizer-nos seres racionalizantes - aqueles que buscam uma explicação ou justificativa com a aparência de produto do raciocínio para encobrir suas projeções, autoenganos etc.

Nosso aparelho psíquico nos prega peças as mais vexatórias. Não raro cometemos aquilo que em Direito se chama Erro de Representação. Significa tomar um acontecimento como se outro fosse, emprestar-lhe um significado distindo daquele que tem. As razões e os tipos são vários. Um deles fala de Projeção e é abordado pela Psicologia/Psicanálise.

Como o próprio nome deixa entrever, consiste em atribuir ao outro algo que, na realidade, é inerente ao próprio sujeito. Por não conseguir admitir, suportar, conviver com determinados aspectos de sua personalidade, defensivamente os atribui ao outro. É um processo inconsciente.
"Termo utilizado por Sigmund Freud a partir de 1895, essencialmente para definir o mecanismo da paranóia, porém mais tarde retomado por todas as escolas psicanalíticas para designar um modo de defesa primário, comum à psicose, à neurose e à perversão, pelo qual o sujeito projeta num outro sujeito ou num objeto desejos que provém dele, mas cuja origem ele desconhece, atribuindo-os a uma alteridade que lhe é externa.
> ESTÁDIO DO ESPELHO; IDENTIFICAÇÃO; IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA; OBJETO, RELAÇÃO DE; OUTRO; POSIÇÃO DEPRESSIVA/POSIÇÃO ESQUIZO-PARANÓIDE."
Cf. Dic. de Psicanálise, Roudinesco & Plon, 603.


Como não prezamos muito no dia-a-dia a prática do contraditório (ouvir a outra parte antes de elaborarmos o nosso juízo de valor), também frequentemente costumamos assumir como verdadeira a primeira versão que nos chega dos fatos, como se fato fosse.

É muito comum constatarmos esse tipo de ocorrência no modo de alguns jornais, sobretudo, apresentarem certas notícias. Eles acusam, julgam e condenam com uma simples manchete. Apesar de o Código de Ética dos Jornalistas proibir com veemência esse tipo de conduta.

Um jornalista não pode, sob pena de desrespeitar as determinações éticas fixadas pelo seu Conselho de Regulamentação e Fiscalização Profissional, jogar com a dignidade de outrem. - Embora sejam frequentes notícias desrespeitosas, estigmatizantes mesmo, sobretudo quando se trata de travestis.

Art. 6º É dever do jornalista:

I - opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;

VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;

X - defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;

XI - defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias;

Art. 12.
O jornalista deve:

III - tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;

VI - promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável; (Ver a matéria completa aqui.)

Também para o pesquisador lhe são transmitidas normas de conduta, preceitos éticos a serem por ele observados. Por exemplo, técnicas de interpretação de fontes - sejam documentais, iconográficas ou orais -, de modo a que se mantenha atento a esses e outros mecanismos verificáveis na investigação de determinado evento histórico.

No aspecto ético, de modo semelhante ao jornalista, precisa o pesquisador observar que, em razão de seu objeto de trabalho envolver pessoas, seres dotados do direito à imagem, à dignidade, (sobretudo quando vivas) não devem ser expostos ao ridículo, tampouco ter a sua vida pessoal afetada negativamente por conta de uma pesquisa que é realizada, Ainda que ele próprio, informante/ entrevistado, tenha se exposto (por inocência, imprevisão ou boa fé) além do razoável.

Quando vemos, numa pesquisa acadêmica ou numa qualquer publicação, não serem observados tais aspectos todos nós nos enchemos de vergonha e tristeza. É acontecimento de todo e tido por todos como lamentável. Aspectos que se mostram menores, irrelevantes - completamente - ao objetivo principal (da pesquisa ou da notícia); que mais se emaranham numa trama de intrigas, desafetos, venditas, obssesão, perseguição e, mesmo, morte em circunstâncias nebulosas e que se prestam a alimentar versões criminosas - enfim, a nossa tão humana pequenez -, são vistos serem impunemente expostos. São facetas que caem bem em romances de suspense, mas que em leituras outras são colocadas sob interrogação - a que se prestam? quais os reais objetivos? quais os ganhos podem estar em busca quem os promove?



O objetivo de toda esta introdução é recordar a necessidade de um distanciamento crítico no seu espírito, leitor/a, seja para qual seja a leitura.

Dito isto, quero agora apresentar dois textos que expressam distintas leituras acerca de acontecimentos verificados no VII EBGL (VII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas), ocorrido em 1995 na cidade de Curitiba, ocasião em que se criou a ABGLT (Associação Brasileira de Gays , Lésbicas, Travestis e Transexuais, então de Gays, Lésbicas e Travestis). Embora façam referência a dissensões, conflitos, tratam do processo de construção de uma importante entidade - a ABGLT.

São textos já trazidos a um público amplo: foram ambos publicados em jornal (no jornal Nós Por Exemplo em abril de 1995). Dão seguimento, suas publicações aqui, à proposta de estimular a recuperação da memória/história do MHB/MLGBT.

"Prezados Amigos do NÓS POR EXEMPLO
Não voltem a publicar, por favor, na seção 'Nós Mulheres', textos de tão baixo nível como a tal 'Fábula de uma memória insana do VII EBGL'. Este tipo de texto presta um desserviço a todas nós, lésbicas, e ao próprio movimento brasileiro de gays e lésbicas, pois é pura fofocagem difamatória e mesquinha.

Ninguém impediu a tal Rosinha, merecidamente eleita Miss Uó, de manifestar-se, nem a agrediu fisicamente. Pelo que se sabe, foi ela quem agrediu verbalmente um dos integrantes da comissão organizadora do encontro e fisicamente um dos representantes do grupo Arco-Íris. Aliás, no final do encontro, deu para andar atrás das pessoas proferindo insultos e erguendo a mão como se fosse desferir golpes. Que se há de fazer?

Nenhuma coordenadora de mesa pediu também para quem não estivesse de acordo com a própria se retirasse da plenária. e fato, a coordenadora da mesa disse que quem não tinha interesse de discutir as questões em pauta de forma civilizada, pois havia um bando de baderneiros (Nuances, Coletivo de F...Lésbicas, Rosinhas e Ronaldos) tentando impedir os debates, que fizesse o favor de retirar-se e deixasse as pessoas conversarem em paz.

Não houve ainda nenhum clima de Congresso Nacional, em Curitiba, com distribuição de cargos e votos de cabresto. A maioria dos grupos, presentes no encontro, decidiu criar uma associação de grupos lésbicos, gays, de travestis e simpatizantes com o objetivo de potencializar a luta por nossos direitos. Desde o fim da ditadura militar, brasileiras e brasileiros têm direito à livre associação. (Parece que tem gente saudosa dos tempos do Geisel!!!). A criação da associação não foi votada, pois não dependia do referendo da plenária, mas pediu-se para a ABGLT o apoio do VII Encontro, apoio concedido por consenso. Não existiu, portanto, nenhum voto de cabresto nem política de coronéis.

Enfim, amigos do NPE, que tal mandar a Turma do Uó para o Uó que a pariu e só publicar na seção 'Nós, Mulheres' textos de alto astral, com que os grupos de lésbicas estão fazendo ou se propondo a fazer, com artigos sobre questões de interesse geral como sexualidade, maternidade, enrustimento, amor etc... Há mulheres tão interessantes fazendo coisas tão interessantes. Deixemos de lado essas do Uó que se torram e ainda por cima se escondem atrás de pseudônimos esdrúxulos.

Um Abraço.
Míriam Martinho pela Rede de Informação UM OUTRO OLHAR."

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"QUERO UM TRONO

Conferir o óbvio foi a tônica do VII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas ocorrido em Curitiba de 28 a 31/01/95. Pôde-se verificar de fato a quantas anda a movimentação de grurpos que tentam lutar por uma cidadania plena.

Acredito que qualquer avaliação deva ter em mente a situação momentânea e histórica que o país está vivenciando e, até mesmo, o particular relacionamento entre entidades governamentais e ONGs paranaenses.

Mesmo num passaod recente os 10 mandamentos reinaram nos corredores dos hotéis ou mesmo num quarto reservado. Nesses locais e até mesmo nas ruas eles tem o sabor do desgosto e da apologia das homossexualidades. Mandamentos que desrespeitam os indivíduos e põem num mesmo balaio pessoas que nem sempre gostariam de ser reconhecidas apenas pelo seu potencial erótico; por serem putos ou frescos, sapatonas ou sapatilhas...

Na realidade o que parece reinar na movimentação dos grupos é a necessidade da tomada do poder pelo poder em si, não importando os meios. Criam-se associações e/ou grupos para possibilitar a captação de recursos financeiros que não mal geridos na efetiva quebra dos falsos valores da sociedade mas contudo corroboram no acirramento do preconceito.

O Encontro, que deveria ser uma troca de experiências e fortalecimento do contato de todos os grupos acabou num leilão de cargos para a Associação criada. Esta perdeu o caráter que desejávamos no encontro anterior, em São Paulo, e assumiu um caráter centralizador de decisões de interesse de todos. Assim, em função da cooptação de muitas lideranças, deixamos de cobrar efetivamente do estado a sua responsabilidade na política social.

Nessa 'dança de marionetes' sentimos que a identificação na luta contra o preconceito e as discriminações passa mais por uma identificação ideológica, de pensamento, de concepção de vida do que uma identificação por orientação sexual.

A má fé e o enrustimento levam algumas lideranças a venderem a alma ao diabo. Tentam no seu discurso pronto e debilitado fazer-nos crer que o inimigo está lá fora: é heterossexual e usa óculos escuros. Não precisamos desses que tentam, na sua falsidade e ignorânica, justificar o por quê existimos, porque somos o que somos [sic]. Não precisamos reforçar a normatização das relações homoeróticas para mais facilmente sermos assimilados nessas novelas de porcelana falsa das grandes emissoras de TV.

Precisamos, sim, de mais respeito e participação de todos. Nota-se que nesses encontros, as pessoas são deliberadamente utilizadas como 'ovelhinhas de presépio'. Não opinam e inclusive anulam o seu direito ao voto; visto a votação na 1ª plenária do Encontro. Pode?

Isso é fruto da micropolítica cotidiana nos próprios grupos em suas origens, nas suas ccidades. Reflete a hierarquização do poder e das responsabilidades. Delega-se poder a outrem e anula-se. Vivemos a história do outro. Vivemos a história do outro, na sua sombra, enquanto somos úteis, depois... azar! Somos descartáveis? Deixamos assim que prepotentes nos representem.

grupos que sequer discutem pontos essenciais à formação de uma Associação (estatuto, por exemplo) e que esperneiam por podres podderes merecem nossa confiança?

Como indivíduo, luto por uma socialização dos conhecimentos para a melhooria na qualidade de vida de todos: 'homossexuais, bissexuais, heterossexuais' e todos aqueles que não estejam contemplados nesses rótulos.

Não dá pra aceitar o auto-preconceito. Temos que urgentemente propor alternativas de ação dentro dos grupos através, por exemplo, de efetivas relações igualitárias. Mas também temos de propor alternativas de ação extra grupos: em relação às suas campanhas, muitas vezes com um caráter normatizador; nas ações cotidianas, rediscutindo o conteúdo de panfletos e outros impressos e também as relações dos grupos com outros movimentos sociais.

Enfim, eles nos representam?

O não agir dará espaço aos populistas que procuram em qualquer partido uma tentativa de ascensão individual, esquecendo o princípio do respeito às diferenças.

Chega de viados hipócritas que já estiveram )estão) [sic] no poder e desrespeitaram os direitos humanos em geral, inclusive das próprias 'amigas' em prol de sucesso e dinheiro público nos seus projetos pessoais.

Os grupos e pessoas contrários a essa politicagem barata, encarando as suas realidades e limitações, devem esforçar-se para trocar idéias e experiências procurando formas efetivas de combate ao preconceito e inclusive, mostrando os paradoxos, colocar esses zumbis em suas covas.

Glademir Lorensi, Coordenador Geral do NUANCES"

Referências:
Os textos transcritos foram publicados ambos na página 6 do jornal Nós Por Exemplo, ano IV, nº 22, abril de 1995.

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Jorge Zahar, RJ, 1997.

GIANETTI, Eduardo. Autoengano. Companhia das Letras e Companhia de Bolso [esgotado]. Digitalizado para amplo acesso. Disponível em http://www.fgospel.com.br/portal/img/bd/536.pdf.



segunda-feira, 22 de março de 2010

PAULO FATAL: poeta, ex-presidente do Grupo Triângulo Rosa/RJ


Paulo Silva de Oliveira, nome artístico: Paulo Fatal

Nascido em 1947, no Rio de Janeiro, RJ, é Psiquiatra, poeta, escritor. Fundador do Movimento Verso Vício, é integrante da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e autor dos livros: INVICTA - AIDS AQUI: Toques, Becos e Saídas (1988, Gapa), Caderno de poesia Oficina 8 (antologia, 1987),Caderno de poesia Oficina 9 (antologia, 1988), A Fada de Paracambi (contos, 1985, ed. do autor), Verso Vício (Antologia, 1985, ed. autores), Verso Vício (Antologia, 1983, Trote), Doze Poetas Alternativos (antologia, 1981, Trote) e Vapor de Mercúrio (poesia, 1979, Arquimedes).


Integrou o Grupo Triângulo Rosa do Rio de Janeiro, ocupando os cargos de Presidente e Secretário.

Um dos primeiros a se posicionar pelo enfrentamento à pandemia da Sida/Aids, conciliava sua atuação no Triângulo Rosa (mais ligada a superação da estigmatização aos homossexuais) e nos setores de ação contra a Aids.

(Nas fotos ao lado, juntamente com Fernando Gabeira, Herbert Daniel, Carlos Minc e Alfredo Sirkis, em manifestação na Cinelândia/RJ, contra o preconceito decorrente da pandemia da Sida/Aids).

"Por motivos óbvios e obscuros, como o fato de eu ser médico psiquiatra, fui indicado pelo pessoal do Triângulo Rosa como representante do grupo numa tentativa de aproximação com comissões oficiais, e para coordenar dentro do próprio grupo discussões sobre o polêmico tema da Aids. [...] Acabei sento aceito como representante do Rosa na Comissão Interinstitucional de Combate e Controle da Aids no Estado do rio de Janeiro, criada pela Secretaria Estadual de aúde em meados de 1985 (Secretário Dr. Eduardo Costa; Presidente da Comissão, Dr. Cláudio Amaral - posteriormente substituído pelo Dr. Álvaro Matida). Como os outros membros da Comissão, minha participação era (é) voluntária, não recebendo remuneração, nem mordomias. [...] Não trabalho como médico que trata de Pessoas com Aids. Procuro atuar no campo da prevenção da Síndrome. [...] Na Comissão, aliás antes de haver a Comissão, quando o Dr. Cláudio Amaral aceitou minha participação na campanha anti-aids, realizamos debates noo Departamento de Doenças Transmissíveis, dirigido por ele [...] Foi proveitoso. O Rosa mobilizava as Pessoas. O Cláudio dividia a coordenação do debate comigo ou com alguém do Triângulo. Na época a idéia de que a Aids só atacava Homossexuais era ainda mais arraigada do que agora [1988]" [...] Com o Cláudio, e a partir de indicações do Cláudio participei de vários debates e dei várias declarações a jornalistas. Depois entrou para o Departamento o Dr. Álvaro Matida, que seguiu na mesma linha, aceitando a colaboração do Triângulo Rosa, e também, quando se criou em 1986, do grupo Atobá, e depois do GAPA-RJ (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids), criado em 1987. (Invicta Aids Aqui, 1988, p. 12-15)

"Aproveito agora para esclarecer certas divergências que andei tendo com Pessoas do Triângulo Rosa. Coisas da democracia. É que há ativistas que se irritam muito mais do que eu com essa coisa de a imprensa divulgar opiniões e atos do Rosa em relação à Aids, e não ter interesse algum em divulgar outras atividades do grupo. Que se pode fazer? Combater preconceitos, assim meio em tese, parece mesmo menos Assunto do que ajudar a combater (ou negar-se a ajudar a combater...) uma doença Nova e Terrível e Mortal. Acho que se o Triângulo Rosa resolvesse que Aids deve interessar a todos e parecesse desinteressado, seria contraditório e um erro político. Eu acho. Esperar que a ACM [Associação Cristã de Moços], a FAMERJ [Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro], os sindicatos, as Escolas de Samba etc. etc. passem a participar de luta anti-Aids para só então o Rosa resolver também se mobilizar.. . Não sei. Denunciar que há preconceito, derrubar ou criar certos artigos de códigos de doença ou ética é para mim necessário, sempre, mas isso tem sido lamentavelmente de pouco interesse para jornalistas, autoridades e para as próprias tribos Homos." (Invicta Aids Aqui, 1988, p. 33)


É membro da Turma Ok (foto acima, ao lado de Paulo Mello).


Referências:
http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/Consulta/Autor_nav.php?autor=1325
http://www.joaodorio.com/Arquivo/2004/10,11/modernismo.htm
http://www.turmaok.com.br/paulomellopaulofathal.jpg
http://picasaweb.google.com.br/site.hebertdaniel
Invicta Aids Aqui - Toques, Becos e Saídas. Ed.: Gapa-RJ, 1988.

domingo, 21 de março de 2010

Carta de Herbert Daniel Censurada no Congresso Pela Anistia de 1979: Era "Apenas Uma Bicha"



Herbert Daniel nasceu em 14 de dezembro de 1946 e foi registrado como Herbert Eustáquio de Carvalho. Adotou, na resistência à Ditadura militar implantada no Brasil em 1964, o codinome Daniel. Terminou ficando conhecido mesmo como Herbert Daniel. Permaneceu por cerca de seis anos na clandestinidade. Esteve exilado em Portugal e na França.

Não foi beneficiado pela Anistia. Somente pode retornar ao Brasil quando da prescrição de sua pena, o que se deu em 1981 - ver abaixo.

Por conta da negativa do Consulado Brasileiro em Paris em lhe fornecer o Passaporte é que Daniel escreve a carta publicada no jornal Lampião da Esquina e transcrita aqui, ao final.

Homossexual, teve também que enfrentar o preconceito de seus próprios camaradas. Isso ele conta no seu livro Meu Corpo Daria um Romance, aqui publicado pela Editora Rocco, em 1984.

Foi um dos que assinou a Ata da Assembléia de fundação do Grupo Triângulo Rosa, criado por iniciativa de João Antônio de Souza Mascarenhas, no Rio de Janeiro, em 1985, embora nunca o tivesse visto participar de nenhuma de suas reuniões. Embora isso, o Grupo apoiou sua candidatura a Deputado Estadual pelo PT em 1986, vez que assumia publicamente em sua plataforma política a questão do reconhecimento dos direitos dos homossexuais. [Ver neste blog, o documento oficial do TR comprovando esse apoio, conforme deliberação de sua Diretoria]. Embora não tenha sido eleito, jamais esteve fora da participação política, do comprometimento social.

Foi um dos primeiros à frente da luta contra o HIV/Aids, antes mesmo de saber que estava contaminado. Em 1989, trabalhou na organização do Grupo Pela Vidda/RJ - Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids; ocupou o cargo de Presidente da ABIA, instituição onde também foi o primeiro editor de seu Boletim Informativo. Foi também, junto com Gabeira e Sirkis, um dos organizadores do Partido Verde (PV), que instituiu uma Fundação com o seu nome, em memória de suas lutas em prol da solidariedade, da participação cívica, do comprometimento social, da democracia, das liberdades civis.


Manteve uma relação conjugal por vinte (20) anos com Cláudio Mesquita (à direita de quem olha, nessa foto), a quem ele dedicou o Meu Corpo Daria um Romance.

Sua atuação social no combate ao preconceito e na promoção de mecanismos de proteção social foi objeto de estudo de Cristina Câmara em seu doutoramento (PPGSA-UFRJ):

Apesar de estar afastado das discussões políticas em Paris, é convidado a discutir sobre questões ligadas às minorias, que passam a ter visibilidade no momento, como a ecologia e a homossexualidade. Assim, aproxima-se da Comissão de Cultura do Comitê Brasil pela Anistia – CBA -, formado por pessoas consideradas mais lights, que propõem um debate a respeito. “Proposta indecorosa” foi o título do panfleto de divulgação do debate sobre “Homossexualidade e Política”, encaminhado por esta Comissão, em 1979, em Paris. Há muita polêmica, pois para alguns esta não passa de uma questão “absolutamente secundária” (Daniel, 1982:214). Depois de muita discussão, a proposta é retirada, mas o evento acontece como uma reunião pública na Casa do Brasil, na Cidade Universitária.


É durante o relato desse episódio que Herbert Daniel menciona um outro tipo de exílio, o imposto pelo silêncio: “O silêncio é a forma do discurso duma certa parcela da esquerda sobre a homossexualidade. É uma forma de exilar os homossexuais” (Daniel, 1982:217). O silêncio imposto pela censura, seja a da ditadura, seja a dos preconceitos, interiorizados e propagados nas relações intersubjetivas, pode funcionar como elemento chave nos vários debates que Herbert Daniel provoca. O silêncio é expresso nos seus vários escritos, através das experiências pessoais daqueles que viveram/vivem sob o cenário da ditadura ou da pandemia da aids. Um silêncio marcado por uma imposição externa, no primeiro caso, ou por uma auto-repressão e culpabilização pela homossexualidade e a aids. A ditadura e a aids aparecem como conjunturas históricas, mas a auto-reflexão sobre a homossexualidade atravessa os dois momentos. Ainda que a coerção externa seja mais forte com a ditadura, a violência simbólica está presente e não é menos importante, ao contrário, parece ser o centro da atenção do autor. Nesse sentido, o exílio se confunde com o silêncio.


No período do referido debate, em Paris, Herbert Daniel produz com Cláudio Mesquita alguns fascículos datilografados chamados “Notas Marginais”, posteriormente sintetizados e publicados, em 1983, em “Jacarés e Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade.” O último capítulo do livro - “A síndrome do preconceito” - é um dos primeiros artigos sobre a aids publicado no Brasil.(10) A partir daí começa a refletir teoricamente sobre a homossexualidade, que é vista como um assunto secundário por muitos, ou sugerida como tema para um possível núcleo gay dentro do partido político. Herbert Daniel discorda, pois considera que o debate não deve ser apenas entre os gays, mas mais amplo. Entendido como um problema mais geral, de cidadania, de respeito às diferenças, um tema de debate público por se tratar de um direito individual.


Em 1979, a anistia possibilita a volta de vários exilados, mas Herbert Daniel ainda não pode voltar ao Brasil. Sua pena só será prescrita em maio de 1981.


'Ah, nem, que não, que não, que não escrevo assim: “foi”. Nem vê, num vou comprometer-me em relatórios. Não pode, ainda não pode, que é só 1981 e tem aí seja um general que lê, seja um esseenii que cataloga, um punho que aguarda, que não abriu. Aguardo diante dos portos que tenho fechados, neste resto de exílio que alonga ainda mais uma certa solidão que sempre me pareceu destinação inevitável e temida. Um dos últimos no exílio, já quase nem se fala em anistia – e ela nem houve, estou aqui que não me deixo mentir.' (Daniel, 1982:146).


Decide-se a escrever uma carta que acaba restrita ao Congresso do Comitê Brasil pela Anistia e não gera repercussão. Na ocasião, alguns alegam desmobilização, outros falam do seu tom pessoal na carta e ainda, que exilado não está mais na moda. Daniel resolve escrever uma segunda carta, desta vez dirigida à mãe do Henfil e este a publica.(11) Posteriormente, o jornal Lampião de Esquina - jornal gay publicado entre 1979 e 1981 - a publica na íntegra. Na apresentação da carta, o jornal relata um incidente no Congresso do CBA, quando um dos delegados presentes se opôs a leitura da carta enviada por Herbert Daniel por ele ser “simplesmente uma bicha” (Daniel, 1982:229).


Em maio de 1981, conclui o livro “Passagem para o próximo sonho”, em Paris, que procura ser um livro menos de memórias e mais de lembranças, como prefere dizer. Através das lembranças traça sua trajetória política e os doze anos vividos entre a clandestinidade e o exílio. O livro é publicado no Brasil em 1982, reunindo as discussões sobre a guerrilha àquelas sobre a homossexualidade.


Enfim, o último exilado retorna ao Brasil em 1981. Chega trazendo discussões sobre cultura, ecologia, minorias e, evidentemente, homossexualidade. O momento de maior visibilidade do Grupo Somos/SP havia passado e o jornal Lampião não existia mais.(12) No Rio de Janeiro, o Grupo Somos/RJ ainda mantinha algumas reuniões. Apesar de Herbert Daniel não ser membro de nenhum grupo gay, sempre manteve o diálogo com os ativistas. Às vezes reunindo-se com pessoas do Somos/RJ na sua própria casa. [...]


No cenário político de 1986, a Plataforma de Herbert Daniel propõe alternativas: fazer da sexualidade e da ecologia problemáticas que coloquem em questão a ‘qualidade Da vida’ tendo como referências o corpo e o meio ambiente, ‘espaços históricos do humano.’


'Toda ação política alternativa deve tentar coordenar as possibilidades de integrar as formas de luta que emergem na sociedade. É preciso estabelecer vínculos entre as lutas pelo direito à posse da terra com as lutas que buscam ecologicamente definir uma nova relação com a Terra. É preciso enlaçar a luta dos operários por melhores condições de trabalho, com a luta dos que não querem que o corpo seja um simples aparelho procriador/reprodutor/produtor. É preciso revelar as ligações entre a violência que assassina trabalhadores rurais e a violência que destrói as vidas de mulheres e travestis.' (Deixa Aflorar, 1986:2 [Manifesto de campanha]) [...]


As dificuldades na campanha [candidatura a Deputado Estadual pelo PT em 1986] vão desde o financeiro até o apoio político. Os militantes ou ex-militantes gays não aderem à campanha em peso, como esperado, por ser uma candidatura abertamente gay. Vale dizer que a relação entre Herbert Daniel e o movimento gay sempre foi permeada por divergências. Para Daniel, é necessário fazer da (homos)sexualidade um tema de debate público, mas na sua visão os grupos gays às vezes aprisionam-se a uma identidade que os leva à guetização, o que politicamente não o agrada. Sua questão central são as liberdades individuais e a mudança da sociedade e não a causa gay, ainda que problematize as questões individuais. Considera importante falar na primeira pessoa como se o engajamento em nome próprio, através da exposição de si, tomasse um valor de engajamento coletivo. Na época da campanha, em entrevista à Folha de São Paulo, falou a respeito.


'É importante, para mim, afirmar a minha vivência homossexual exatamente para desestruturar o conceito, para desorganizar uma discriminação e ser capaz, a partir desse ponto, de discutir uma nova ética, que não separe a vida privada da vida pública, que faz do político um representante que não substitui o representado e que seja capaz de discutir a cidadania da forma mais ampla possível. Não faço disso ponto central da minha plataforma. Acho que a sexualidade é uma questão extremamente importante a ser discutida e acredito que os homossexuais que se escondem estão fazendo o jogo de uma opressão, que é uma opressão que não atinge apenas uma minoria dita homossexual, mas atinge a sexualidade de todos, na medida em que limita as possibilidades de cada um aceitar e levar adiante aquilo que são as suas diferenças. É preciso que a democracia garanta que todos possam exercer plenamente suas diferenças.' (14)



Por conta dessa sua postura crítica, há militantes no movimento homossexual que se negam a reconhecê-lo enquanto militante pelo direito dos homossexuais à dignidade, preferindo - de maneira totalmente reducionista - vê-lo apenas como militante contra a AIDS.

O sítio do diretório da Bahia do Partido Verde traz uma biografia dele. Transcrevo um trecho, convidando para que conheçam-no integralmente:

Após este longo período de exílio pátrio imposto pelo regime militar, Herbert Daniel desenvolveu projetos políticos, ministrando palestras sobre a questão homossexual e cidadania baseadas em sua vivência na clandestinidade política e exílio. Suas reflexões políticas e seu conjunto de propostas vanguardistas abordaram temáticas tabus, dando início ao debate sobre as relações políticas até então consideradas "menos importantes", como a homossexualidade e o machismo. Uma de suas propostas foi a inclusão da temática homossexual como pasta de discussões nos partidos de oposição que se organizavam após a abertura política. Avaliou a possibilidade de um diálogo político sobre a homossexualidade, homofobia e suas sequelas como suicídio e solidão. A questão do reconhecer a diferença, cimento básico da democracia, até então à parte da política vigente.
É fonte de inspiração para a Secretaria Nacional Contra a Discriminação, da Juventude Verde - setorial do Partido Verde, criada em 2007 e que "tem como objetivo desenvolver um trabalho amplo de conscientização e combate contra qualquer forma de preconceito, independente de raça, cor, religião ou opção sexual":

O Partido Verde traz em sua história um grande exemplo de vida, pois um dos principais de seus fundadores, Herbert Eustáquio de Carvalho, mais conhecido como Herbert Daniel, foi um dos pioneiros na luta e defesa dos homossexuais no Brasil. Um intelectual sonhador, idealista e sem dúvida um guerreiro. O inesquecível Herbert Daniel mostrou para o Brasil, nos anos 70 e 80, que o nosso país rico em diversidades culturais, históricas e religiosas precisava ser rico, também, no respeito às pessoas.


Seu livro Alegres e Irresponsáveis Abacaxis Americanos - Imagens dos Dias do Medo (Dias, aliás, é anagrama de Aids), editado pela Espaço e Tempo, RJ, em 1987, foi objeto de análise por Antonio Carlos Borges Martins, na sua dissertação de mestrado em letras no Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, 01/2009.

É possível acessar a sua biografia e imagens no sítio da - Fundação Verde Herbert Daniel.

Também se encontram informações a seu respeito no sítio Stonewall Brasil, na seção Militantes Históricos - a lamentar, no entanto, que seja um sítio que transcreve textos sem fazer referências às suas fontes (autoria e local de origem dos mesmos).

Eis a íntegra da Carta de Herbert Daniel, publicada no
Lampião da Esquina, março de 1980, nº 22, ano 2, pág. 10:


"O documento abaixo foi escrito por Herbert-Daniel de Carvalho, um dos exilados que restaram de fora da malha não muito fina da anistia, e que permanecem condenados a ficar longe de seu país. Ele deveria ter sido lido em Salvador, durante o Congresso pela Anistia realizado em fins do ano passado, mas acabou boicotado: O representante do CBAComitê Brasileiro pela Anistia] do Ceará, cujo nome nem merece ser citado, recusou-se a lê-lo porque, segundo ele, o signatário é 'apenas uma bicha'.

Não cremos que seja este o aspecto mais importante da vida pessoal de Herbert-Daniel de Carvalho; mas denunciamos, aqui, o fato de que ele não apenas deixou de ser anistiado pelo governo, como também ficou de fora da anistia apregoada pelos seus supostos companheiros: os 'progressistas' do CBA não o perdoarão jamais por ser homossexual.

É por isso, que publicamos na íntegra, o documento que ele assinou; para que Herbert, há tanto tempo no exílio, não se sinta inteiramente órfão. Nós, homossexuais do LAMPIÃO, estamos solidários com ele, como estaríamos - atenção, pessoal do CBA - com qualquer heterossexual na mesma situação. (AS)" [Aguinaldo Silva] [
Paris, 26 de outubro de 1979. Meus amigos, não fui anistiado. Sou um dos poucos exilados que restam fora das margens que o governo quer impor entre os anistiáveis e condenáveis. Não importa quantos somos, os marginais. Importa que estamos aí para definir o (mau) caráter das medidas que o governo chama de anistia. Ao estabelecer um limite, qualquer que seja, à Anistia, o Poder conserva um trunfo: quer provar que não cede, concede.

Importante que existam os não-anistiados. Não por nós, que temos pouco significado, mas como exemplo e aviso às verdadeiras forças democráticas: continuam em vigor o exílio, a prisão política, o regime de exceção. Não é uma burra intransigência que afeta algumas pessoas, mas a tentativa de impor as regras duma 'democracia parcial'. Não se engana ninguém, a não ser a quem o engano recompensa, o que não é o caso dos que passam na Democracia como algo mais que as aparências hipócritas de um jogo onde nem sempre ganha é o juiz, que superior 'às paixões políticas' nem entra na partida, mas decide a contenda.

É parte do plano, o fato de sermos muito poucos os bodes expiatórios. Ninguém vai fazer no caso de meia dúzia um deus-nos-acuda; pelo menos assim raciocinam os tecnocratas da ditadura com a sua bem conhecida mania de transformar política em aritimética. Porém, não se trata de contagem, está em questão a Democracia que não é só um pouco mais ou pouco menos de ditadura. Nunca foi decisiva a quantidade de exilados e presos, mas a existência mesma do exílio ou da cadeia. A Anistia não é só o problema pessoal de alguns renitentes: coloca um problema político de todos os brasileiros. Nunca se pediu perdão para alguns, exigimos liberdade para todos.

Por isto mesmo não escrevo como um dos 'injustiçados', mas como um qualquer cidadão, que continuo sendo apesar da arbitrariedade que faz que o Consulado de Paris me recuse o passaporte, ou seja, me recuse o direito à cidadania, abuso característico de um regime policialesco onde o desrespeito aos direitos elementares é a forma de fazer executar a lei (ou o seu infrator, no caso extremo, não tão extremamente rar no Brasil).

Não é absolutamente o meu caso pessoal que interessa neste momento. Quem está em discussão não sou eu, mas a anistia do governo. Não pretendo absolutamente utilizar recursos jurídicos mais ou menos astuciosos para me beneficiar dos limites da anistia, pois não creio que seja o meu caso que tem que entrar na anistia, mas é a anistia que tem que entrar em todos os casos dos que foram condenados pela ditadura. Não sou eu quem tem que tentar reduzir minhas penas, mas é a Anistia que deve se ampliar. Isto nada tem a ver com as interpretações de jurisprudência, mas com a evolução democrática do país.

Não continua somente a pequena novela do exílio de uns gatos pingados, mas a vasta história da opressão de todo um povo. Esta aí denuncio, ao falar do meu degredo. Escrevo para denunciar uma ditadura e não para começar a mover petições, processos e outros pauzinhos jurídicos para dar um jeitinho nesta anistia que quer fantasiar a restrição da liberdade. Não é com um jeitinho que se resolve a esculhambação da nossa vida política.

Aceitar fazer da Anistia uma mera questão jurídica é referendar a velha política da ditadura, que sempre tratou seus oponentes como criminosos. Minha participação política foi definida e tratada como crime - e como 'crime comum'. Não me humilha, nem diminui ser tratado como 'criminoso comum'. Revolta-me, seguramente como são tratados no Brasil os 'criminosos comuns'. Por enquanto falamos duma anistia para os 'crimes políticos'.. Um dia teremos uma democracia que nos permita discutir politicamente o crime comum. Muito bem. Até um certo motivo de orgulho. Gente melhor do que eu morreu dignamente entre ladrões e nem por isto deixou de ser menos Cristo.

No consulado me disseram: 'No seu caso temos que esperar, por enquanto'. Esperar, porém, não é esperança - que é a coisa mais ativa que a espera de quem nunca alcança. Esperança nós fazemos, sem esperar as decisões dos poderosos. Minha esperança na Democracia me impede absolutamente de esperar resolver a volta à minha terra segundo a generosidade da Ditadura. Não há nada que a Ditadura tenha a me perdoar ou conceder. Ser anistiado não significa se arrepender diante da ditadura, mas permitir que ela reconheça alguns erros. Não somos nós, exilados e presos, que nos autocriticamos diante da ditadura, mas é um movimento popular democrático atual que obriga o governo a remendar alguns dos seus desmandos.

Nunca erramos por nos opor ao governo ditatorial - e a anistia vem para provar que se houve abuso e crime não foi da parte dos opositores. Como, aliás, o exílio, a prisão, a terrível época que sofremos todos no Brasil vêm para provar enganos políticos nossos e para exigir autocrítica. Tenho por mim que por ter participado da oposição armada à ditadura, não há nenhuma explicação a dar à ditadura. Há uma autocrítica - e feita na discussão com quem interessar possa: isto é, aos que lutam pela Democracia. Não me 'arrependo', não tenhoo 'culpas' e não acho que houve nada de conndenável no que fiz. Quando digo autocrítica, quero me referir a uum julgamento político bem preciso cuja moralidade decorre de princípios que nada têm a ver comm a culpabilidade. Hoje em dia critico a minha participação na tentiva [sic] de sublevação armada por sua ineficácia política e não por qualquer razão falsamente moralizadora. A forma que escolhemos na época para combater nos conduziu a um fracasso cujas conseqüências são bastante mais graves do que o desaastre do exílio e da prisão. Não há como fugir de assumir a responsabilidade duma ação política incorreta: não é pouca a responsabilidade duma ação política incorreta: não é pouca a responsabilidade que temos, todos os dessa geração que foi a minha, de não ter conseguido evitar estes sombrios anos de opressão e desespeero. Se este fracasso nos marca e acompanha, nem por isto nos destrói ou aniquila a memória, patrimônio quenão se pode perder.

Nada a esquecer, não podemos esquecer nada, pelo contrário, é preciso saber muito mais. Lembrar (e conhecer) o que foi esse tempo de silêncio e meias verdades ao som de hinos militares ou militarizados que cantavam o medo e a renúncia. A Anistia não vem para apagar fatos da nossa história recente: ela deve vir para ativar nossa memória, para fazer dessas recordações atualmente dispersas e pessoais uma observação viva na consciência coletiva da nossa gente. A Anistia não deve vir como o último ato de um erro político, mas o primeiro momento de uma renovação, onde a autocrítica não seja apenas uma declaração de intenções, mas a comemoração de avanços da Democracia.

Lembrar quer dizer renovar: a ditadura bem gostaria de fazer esquecer tudo, nenhuma conta a prestar. Acontece que 'esquecer o passado' aqui quer dizer esconder o presente. Não é nenhum revanchismo querer apurar asresponsabilidades [sic], pois não se trata de 'vingar' uma derrota - o que se quer é consolidar uma vitória.

O exílio me ensinou algumas coisas. Inclusive a saudade, que não é fictício desejo de reviver fantasmas, mas uma certa nostalgia de um futuro que não foi, embora desejado. Não quero voltar em busca de ilusões perdidas, mas gostaria de ir para a minha terra encontrar algumas esperanças.

Acho que de tudo o que eu disse fica claro quem são os amigos para quem escrevo esta carta. Vamos nos rever em breve, pessoal, já que nunca nosdesencontramos [sic]. Por aqui faz muito frio mas tenho a vantagem de saber que estou aí com vocês no mesmo barco para o mesmo porto. O que é como o batuque: um privilégio. Até breve. (Herbert-Daniel de Carvalho)"

Referências:
As fotos desta postagem são oriundas do acervo HD na Fundação que leva o seu nome. A PRIMEIRA, como se pode ver através de sua ampliação, documenta uma das primeiras manifestações contra as Mortes Sociais, decorrentes do preconceito que marcou (e ainda marca) o enfrentamento da Sida/Aids - esta foi na Cinelândia, RJ. Nela estão: Herbert Daniel, Carlos Minc, Alfredo Sirkis e Pauto Fatal (de Cavanhaque, bigode e óculos). Psiquiatra, escritor, fundador e militante e um dos Presidentes do Grupo Triângulo Rosa): http://picasaweb.google.com.br/site.hebertdaniel/ManifestacaoCinelandia#5408835862840518338

http://www.hdhotsite.justfree.com/
http://www.ifcs.ufrj.br/~ppgsa/publicacoes/programa_publicacoes_lugarprimeiro5.htm
http://memoriamhb.blogspot.com/2009/04/apoio-do-triangulo-rosa-candidatura-do.html
http://www.juventudeverde.org.br/003/00301015.asp?ttCD_CHAVE=87254
http://www.pvbahia.org/index.php?option=com_content&view=article&id=73&Itemid=131
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/aids_boletim03.pdf
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/aids_boletim16.pdf
http://www.stonewallbrasil.com/militantes1.html


quinta-feira, 18 de março de 2010

DARCY PENTEADO RODA A BAIANA E RESPONDE À FAMÍLIA MESQUITA:

Carta de Darcy Penteado dirigida à Família Mesquita, proprietária do Jornal O Estado de São Paulo e publicada no jornal alternativo EM TEMPO de 17 a 30 de abril de 1980, pág. 19, nº 104, ano 3:

"Darcy Penteado roda a baiana e responde à família Mesquita:



'Cerca de cinco mil travestis se espalham hoje em regiões ricas ou pobres, dominando a noite e as callçadas. Os moradores não suportam mais a situação e a impotência da Polícia. Mas a Justiça lhes dá cobertura e a Polícia não os prende porque no Código Penal, não há como enquadrá-los'.
Assim, o mais influente diário brasileiro, O Estado de São Paulo, dava início a uma série de reportagens, investindo contra os travestis que batem calçada na capital paulista. A família Mesquita, proprietária do jornal e guardiã da moral das classes dominantes há pelos menos um século (sic), dava sua contribuuição para avolumar ainda mais a perseguição ao homossexualismo (sic) no país.

O Pintor e escritor Darcy Penteado, militantes (sic) do novíssimo movimento homossexual e um dos principais articuladores do nanico Lampião, enviou ao Estadão uma densa resposta às reportagens, em defesa dos homossexuais, na qual reivindica o direito do cidadão dispor livremente do próprio corpo e aponta as desigualdades sociais como um dos fatores que originaram o fenômeno do 'travestismo'. A família Mesquisa não deu bola para a carta do Darcy. Em primeira mão, EM TEMPO transcreve a seguir a íntegra do documento, um texto importante para o debate atual dos rumos do movimento de defesa das minorias.

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Esta carta pretende debater, - finalmente - o homossexualismo em geral, o quue sempre foi evitado em vossas páginas, e o travestismo no Brasil em particular, conforme reportagens dos dias 28 e 29 de março.

De alguns anos para cá decidi assumir uma posição consciente de defesa e esclarecimento do homossexualismo, pelo fato de ser homossexual convicto, e porque, igualmente, contra ele ou sobre ele tem-se feito, dito e escrito por aqui coisas desastrosas: mesmo com as melhores intenções os nossos estudiosos vão ainda procurar nas estamtes de Freud a explicação para o que acontece nas sarjetas tupiniquins. Pode? O que dizer então dos não estudiosos ou desinformados?

Deixo claro que a minha atuação e interesse sobre o assunto que também me pertence porque dele faço parte, advém da necessidade da sua discussão em termos liberais e abertos, portanto não preconceituosos, nem vistos de fora para dentro, como tem sido até agora.

Só não sofre (sic) discriminação pela minha sexualidade, por ser um artista versátil, que criou um certo nome em 33 anos de atuação profissional e por ter o sobrenome de uma ilustre família paulista, o que cria um certo respeito, não sei bem a razão.

Afinal, qualquer homossexual que pertença a uma família tradicional (e não existe nenhuma que não ostente pelo menos um, em cada geração), recebe a mesma condescendência e aceitação por parte dos 'normais'. Igualmente, aqueles que não possuem nome famoso mas algum poder econômico, compram com ele a dose necessária de prestígio e... tudo bem! Seria facílimo então, usufruir dessas vantagens 'na moita', isto é, sem abrir a bboca. Cômodo, inclusive mas... onde colocaria eu a minha consciência e integridade?

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O homossexualismo não é uma doença

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Falo então, neste momento, pelo homossexual comum, o desconhecido, o assalariado, o que luta e subsiste de um sub-emprego, o anônimo que é pobre (talvez negro, o que ainda piora a sua situação) e que, não querendo ou não conseguindo enquadrar-se nos padrões oficiais da heterossexualidade sofre desde a infância, na família, na escola, na igreja, no trabalho, etc., todo tipo de discriminação, o que tanto mais se agrava quanto menor é o centro populacional em que ele deva habitar. Os meios de comunicação, a tevê principalmente, degeneram ainda mais a compreensão e integração porque só mostram o óbvio e o caricato da homossexualidade. Pior ainda é a imprensa marrom que usa o homossexualismo como consumo (porque o assunto vende), infiltrando idéias errôneas e instigando a violência contra os homossexuais, ccomo se fosse um direiot de justiça.

Existem dois esclarecimentos, talvez primários para os estudiosos, mas que são básicos como ponto de partida para a discussão do tema. Primeiro: travestismo e homossexulaismo são gêneros diversos de comportamento, sendo o travestismo uma das muitas modalidades de homossexualismo. Segundo: o homossexualismo
não é patológico, isto é, não é uma doença, nem física, nem mental, conforme conncluiu, por exemplo em 1975 a Associação Americana de Psiquiatria. Tão absurdo julgá-lo uma doença como considerar patológicos, igualmente, os indivíduos canhotos. Portanto a patologia da violência e do crime tanto podem aparecer indiscriminadamente no homo como no hetero e se essa incidência é bem mais comum entre os heterossecuais é porque, logicammente, o número deles é bem maior, sendo que o total, mesmo aproximado de homos no mundo todo, pelo próprio fator da repressão, é impossível comprovar (que o diga Kinsey).

Se todavia os jornais divulgam o contrário, que fazer? É porque as notícias homossexuais vendem mais que as dos heteros e, que estas últimas, mesmo violentas, são tantas e tantas que se tornam corriqueiras e enfadonhas ao público, sempre ávido de novidades. Ora, os senhores como excelentes profissionais de imprensa não desconhecem este fato, tanto que também para prestar serviços públicos, mas não só por isso, resolveram tocar num assunto que nunca, segundo consta, havia transposto os umbrais desse jornal. E o fizeram muito bem, só que com a natural falta de prática no setor cometeram certos erros e deslizes, alguns felizmente pouco graves, como por exemplo os desenhos das zonas de localização dos travestis na cidade, o que poderá servir como útil roteiro para os fregueses ainda não iniciados - porque as 'vítimas', sejam os motoristas, os transeuntes cotidianos ou os moradores, estão 'carecas' de saber e de vê-los por ali, não precisando de mais informações a esse respeito.

Outro ponto nas reportagens, este porém bem mais grave, é que tanto os entrevistados como o próprio jornal não propõem qualquer solução além da repressão policial aberta a todos os homossexuais (uma vez que a palavra travesti e homossexual se confundem no texto). E ainda uma semi-velada incitação à vilência, como revanche pela violência praticada pelos travestis (e os heteros, marginais ou não, também não as praticam?).

É preciso ter em mente que numa civilização neurotizada como a nossa, os justiceiros voluntários estão sempre pronttos a entrar em ação à espera apenas de um sinal, em nome de um ideal qualquer ou simplesmente à procura do prazer de uma aventura sádica, principalmente quando sintam-se acobertados e garantidos pelo sistema. Quantos travestis (ou homossexuais, se preferirem) ou prostitutas já não foram assassinados assim?

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Sexualidade, um tabu na nossa sociedade
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Mas continuando: a sexualidade ainda hoje é tabu em muitos sentidos, vinculada que está pela religião e pelas connveniências da sociedade dominante. Nesse quadro complexo, o homossexualismo tem sido a incômoda pedra no sapato das convenções, já que ninguém tem coragem de descalçar completamente o dito sapato para não ter que mostrar os dedos imundos e fedorentos.

A repressão é para alguns o caminho mais fácil: na Rússia os homossexuais são confinados em 'hospitais psiquiátricos', como os dissidentes políticos. Durante o nazismo, foram vitimados de 50 a 80 mil homossexuais, nos campos de concentração (pela sua preferência sexual, independente de raça, religião ou partidarismo político) e ninguém se lembrou de compor para eles um 'Holocausto'. E aqui ao lado, atualmente, na Argentina de Vidella, os homossexuais são perseguidos, cumprem prisão ou têm que exilar-se em outros países, exclusivamente pelo seu fator sexual. Os senhores sabiam disto?

A prostituição pelo travestismo é um fenômeno novo no enorme painel da sexualidade humana, sendo que no Brasil ele está atingindo proporções inimagináveis! Por que aqui, especificamente? Um inglês amigo meu, recém-chegado a São Paulo, ficou espantado com o número de travestis que viu prostituindo-se nas nossas ruas. "Na Inglaterra o travestismo é uma opção, falou. Alguns se prostituem, mas em geral não necessitam porque têm outros trabalhos". Constata-se então que a prostituição do travesti aparece no Brasil como um dos muitos espelhos da nossa miséria, da nossa desigualdade social e econômica e, conssequentemente do elitismo do nosso poder político. É fato comprovado que o travesti-prostituto vem em sua maioria das camadas proletárias da nossa sociedade e que antes de adotar como embalagem o traje feminino, quase sempre imigrou de um lugar menor para uma cidade grande. Com formação educacional primária, calejado desde a infância na sua cidade pela incompreensão familiar e pela opressão social, chega por aqui só com a coragem para batalha, como eles dizem, e a sagacidade (que algumas vezes advem, curiosamente, da sua condição sexual), mas inaptos, mesmo para os sub-empregos, para os quais os patrões também dão prioridade aos heteros, 'porque não desmunhecam'.

Entenda-se que não pretendo fazer nenhuma apologia do travestismo, ainda menos do que seja acrescido de qualquer crime previsto pela lei. Mas defendo o direito essencial a todos nós, constante da Carta dos Direitos Humanos, de cada um dispor livremente do seu corpo e da sua mente, à critério da própria consciência. O travestismo a nível de prostituição, (sic) como tantas outras mazelas nacionais, é indiscutivelmente consequência da nossa fome. Mas ainda existe outro fator paralelo: nós que vivemos numa e para uma sociedade consumista, sabemos que o postulado básico do 'marketing' é: só existe oferta onde existe a procura'. Parece incrível, mas a opinião mais sábia e poderada (sic) entre as das várias pessoas, autoridades ou não, entrevistadas pelo 'Estado', foi a do guarda-noturno Cícero Araujo, que disse: 'A cada momento me pergunto se a anormalidade de certas pessoas que se envolvem com os travestis não será mais grave do que a do próprio 'anormal'. (As aspas do anormal são minhas uma vez que o repórter discretamente as omitiu - sic).

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O travestismo tem origem na fome
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Porque o travestismo de rua surgiu também como uma exigência do mercado sexual das grandes cidades e, estranhem os leigos, para servir o mercado heterossexual - sic (ou o que se esconde sob a aparência dele); e também como válvula de escape para os homoossexuais não assumidos (em número tão grande que é capaz de sustentar profissionalmente 5.000 travestis, só em São Paulo!).

Essa clientela, é, em sua maioria composta de respeitáveis chefes de família que não têm (ou não tiveram, no devido tempo), a coragem ou a possibilidade de procurar relacionamentos com outros homossexuais seus iguais, recorrendo então ao travesti, que na maneira deles de ver, é quase uma mulher...

O divertido nesse enovelado de desculpas é que a moral vigente, mesmo sabendo de tudo, põe olhos generosos sobre o fato para não abalar os alicerces do sistema. Mais divertido ainda, conforme depoimentos de muitos travestis, é que são quase sempre eles, os travestis, os que cumprem a função ativa no ato sexual... Quem entende o porque de tudo isso?... E o que está verdadeiramente errado? O sistema proporciona (quando não impõe) mais facilidades de vida ao homossexual para que ele negue sua natureza adotando as regras e comportamentos heteros, aqueles que convêm ao sistema. O homossexual que os aceita, aguenta o quanto pode mas... mais cedo ou mais tarde escapa pelas tangentes porque ninguém é de ferro.

'Faça por não demonstrar e nós faremos de conta que não estamos vendo', dizem as convenções, isto até que os resultados dessa mistificação transbordem em forma de mazelas sociais, o que nenhum 'band-aid' de última hora consegue esconder, muito menos curar. Reprimir? Temos eloquentes exemplos na história, de como as repressões levam a grandes catástrofes. Lembremos por exemplo do extermínio dos judeus...

Mas se for para agir de maneira correta, vamos por as mãos nas consciências pesadas e pensar na reforma (ou abertura, já que a palavra anda tão modernosa) que seja prá valer, política e socialmente. Com uma reformulação ideal do sistema, a qual deverá ser de baixo para cima e de dentro para fora, os nossos mais graves problemas, como a fome, a má distribuição de terras, o servilismo aos capitais estrangeiros, a marginalização do homem do campo, a sub-vida e a consequente violência dos grandes centros urbanos, a infância abandonada, a destruição dos nossos sistema (sic) ecológicos de sustentação, a burocracia institucionalizada, a corrupção generalizada, e vários outros flagelos que os governantes conhecem melhor do que eu - assim como alguns problemas menores e decorrentes, como este da prostituição dos travestis, se abrandarão ou talvez até desapareçam. Só que apenas pregando o esparadrapo por cima não resolve... Mas se for para continuar na mesma, convem importar 'dand-aids' grandes, tamanho família da Rússia, da Alemanha nazista, ou da Argentina, que é mais perto.

Darcy Penteado (Em nome do jornal Lampião)"

Fonte: jornal Em Tempo, nº 104, de 17 a 30 de abril de 1980, pág. 19.
Diagramação do original.

"O TRAVESTI, ESTE DESCONHECIDO", por DARCY PENTEADO

Este é o artigo a que Darcy Penteado se referia no artigo de abril de 1980, postado neste blog:

"A função cria o órgão, ou na natureza nada se cria e nada se destrói, tudo se transforma"

"Lembro-me destes sábios, porém óbvios conceitos aprendidos no colégio para exemplificar o surgimento, resultante de uma simbiose, de um novo ser da categoria humana: o travesti.

Quem é ou o que é, afinal, o travesti?

"Travesti, s.m. (gal.) disfarce no trajar; (por extensão) disfarce." Pequeno Dicionário Bras. da Língua Portuguesa.

Um outro conceito remoto e bastante amplo de interpretação, determina como travestido todo indivíduo que adote um traje e um comportamento com os quaiis se faz passar por uma determinada personagem assumida. Assim, não só é travestido aquele que adota trajes do sexo oposto como também, por exemplo, aquele que se vista de rei, lobo, general, etc. sem sê-lo. Isto no entanto bem pouco ou nada tem a ver com o sentido específico que adquiriram a palavra e o ser em questão nos nossos dias. Hoje, travesti ficou sendo aquele (ou aquela bem mais raramente) que use roupas do sexo oposto e que elabore o próprio corpo com atitudes, posturas, maquilagem, hormônios e cirurgias plásticas a fim de assemelhar-se ao sexo imitado - o que ironicamente, no caos atual de certos travestis masculinos, supera em feminilidade o modelo adotado.

Para os leigos, a compreensão da sexualidade humana tornou-se algo extremamente complicado porque os estereótipos acadêmicos foram superados e a subdivisão atual está bem mais diversificada. Não se pode dizer, por exemplo, que todo travesti seja um transexual. Pode existir a reincidência, mas quase sempre as cabeças funcionam diferentemente. O transexual masculino tem corpo com caracteres masculinos, órgãos sexuais masculinos completos (no hermafrodita, que é outra categooria, os dois sexos são atrofiados, com predominância de um), porém comportamento mental feminino, o que provoca constante atrito entre a mente e o corpo antagônicos - um tormendo que resulta na rejeição e na repulsa do próprio órgão sexual masculino.

Já o travesti (sempre naquele sentido modernoso que se lhe dá hoje), é um indivíduo dotado de boa dosagem (?) homossexual, digamos que seja daquele tipo de homossexualidade que mais se aproxima do feminino (a gama é imensa, como já foi dito) e que por razões diversas, mas principalmente para satisfazer o ego, tenta uma semelhança com o sexo oposto.

Mas então qual a diferença entre transexual e travesti? Cuca, principalmente cuca!... O travesti (sempre nos termos de hoje, não esquecer), sente como todos nós a necessidade de chamar atenção sobre sua pessoa, mas a sua conformação masculina, devido aos padrões estabelecidos, nem sempre é a mais favorável para tal fim e ele se ajusta ao outro padrão, transformando-se. Não conheço nenhum travesti que, quando travestido, seja tímido: nesse momento, como é óbvio, ele está imbuído dessa sua forma de realização senão não se travestiria. As implantações de seio, quadris ou pometes do rosto, em silicone, são a complementação gloriosa e plena dessa mística de beleza adotada como padrão.

O transexual (masculino) serve-se do travestismo por uma necessidade intrínseca porém circunstancial, porque a sua mente está determinando que ele é mulher, obviamente deve se vestir como uma delas. Na verdade ele está vestindo-se, não travestindo-se, porém tem contra a sua mente certos caracteres físicos masculinos que precisa esconder. Os poucos transexuais masculinos comprovados que conheço são tímidos e não se satisfazem apenas com o travestismo: todos anseiam por operações castradoras mas que, pelo menos exteriormente, lhes dê a aparência sexual feminina. Numa comparação rasteira, pode-se dizer que os transexuais almejam ser mulheres simples e caseiras, enquanto os travestis têm alma de vedetes ou de mulheres mundanas.

Certo que a timidez dos transexuais deve ou pode advir da insegurança de situações sexuais e civis ambíguas, mas este fator em si já comprova a diferença porque aos travestis o pênis não causa traumas ou impecilhos e a quase maioria considera um absurdo submeter-se a uma operação castradora que irá suprimir o prazer da ejaculação, substituido por um prazer dependente e apenas mental da posse pela introdução do pênis do macho na vagina simulada que foi fabricada com a pele do seu pênis. A própria irreversibilidade do processo é uma parada dura. Muitos também evitam os hormônios porque estes reduzem ou cancelam o prazer do coito, e consideram inclusive o fator (econômico) da ereção, uma vez que boa parte dos clientes dos travestis-prostitutos preferem ser sodomizados. Mas disto falarei adiante.

Chegamos então atualmeente, com o travesti, a um ser humano que poderemos chamar de novo porque nunca antes adquiriu características semelhantes. Assexuado? Ao contrário: bissexuado. Ambíguo: Longe disso, porque possui caracteres bem definidos, só que fora dos padrões convencionais, do "deja vue". Um protótipo, isto sim, de uma época em que ambíguos e discutíveis são os conceitos de liberdade e permissividade.

Anatomicamente temos em mãos um ser humano que em tudo se aproxima (ou faz por aproximar-se) dos moldes consumistas dos concursos de beleza feminino e que, como não poderia deixar de ser pelo seu próprio critério e caráter, são padrões tradicionalmente machistas, isto é, da mulher que é selecionada anatomicamente para dar prazer ao homem. Os enxertos plásticos conseguem dar aos travestis resultados incríveis de simulação. Um corpo antes masculino ou levemente dúbio define-se para o feminino, com seios inflados de silicone líquido e que ficam do tamanho desejado (eles quase sempre os querem grandes); os quadris são igualmente injetados, evidenciando a cintura; os pelos e a barba eliminados com eletrólise etc., etc., e tudo complementado com longos cabelos coloridos, maquilagem e... muito charme, superior mesmo aos das mulheres comuns, algo que só encontra parâmetros nos antigos modelos hollywodeanos.

A única diferença entre os travestis e as "stars" de cinema está no pênis e nos testículos (dos travestis), únicos resquícios masculinos exteriores que ainda lhes restam, mas que podem ser dissimulados entre as coxas com o auxílio de um adesivo (sendo que o melhor é emplastro Sabiá, que não fere a pele pelo uso constante). E é assim que um travesti aparece em público, muitas vezes despido quase que totalmente em shows e bailes de carnaval, deixando que as dúvidas pairem mesmo entre aqueles garanhões que se gabam de conhecer mulheres.

Não tenho dúvidas quanto ao fato de a categoria vir a ser em breve analisado pelo "Museu do Homem" (sem ironia), entidade cultural francesa que se especializa em estudar o ser humano nas suas origens, classificando-o geográfica e etnologicamente. Porque o travesti, apesar das conotações que podem aparecer superficiais e imediatistas, já tem o seu lugar definido (apesar dos pesares para os donos da moral), na sociedade de consumo em que vivemos. Chamá-los apenas de "anormais", além do cômodo julgamento preconceitual, é escapismo da própria sociedade que deles faz uso, dando-lhes uma função utilitarista. Ora, se é indiscutível que tudo o que não sirva para consumo no mundo de hoje é logo relegado ao rol de inutilidades. Tendo-se em conta como ponto de referência que numa cidade como São Paulo devem existir atualmente de cinco a oito mil travestis (o cálculo é meu, de orelhada, porque não existe nenhum recenseamento, nem na polícia), é evidente que, queira-se ou não, eles estão cumprindo uma função social exigida pelo meio; e são utilitários, mesmo praticando a prostituição, porque a oferta não subsiste sem a procura.

Seria muito cômodo considerar o fato apenas pelo seu lado sensorial, isto é pela solicitação do ego de cada indivíduo em questão, que assim estaria atravessando a porta semi-aberta da permissividade atual. Porém, atrás de toda essa aparente frescura, existe um fator social bastante sério: a exaustão do mercado de trabalho, principalmente para a mão-de-obra não qualificada. O afluxo às grandes cidades à procura de melhores condições de vida atinge também os setores considerados subterrâneos: o homossexual pobre não resiste à pressão social, econômica e familiar nas cidades pequenas e, tal como o lavrador de quem o latifundiário usurpa a terra, emigra para os centros maiores. O homossexual de classe média tem mais defesas para resistir ao êxodo; o da classe baixa não.

Mas o que a cidade grande pode oferecer em princípio, a esse indivíduo, como meio de subsistência? Talvez remuneração pequena e esporádica por trabalhos isolados, biscates que podem ou não ocorrer diariamente, ou então, na melhor das hipóteses um emprego em funções domésticas em que ele será aceito com salário baixo porque os patrões e patroas usam o homossexualismo como um timbre fácil para a exploração alheia. Fora isto, resta-lhes o crime e a marginalidade generalizada, fator comum na máquina compressora da sociedade atual.

Ora, como atividade sexual dispensa carteira profissional assinada e não exige especialização (esta só vem depois, com o tempo), o homossexual desempregado, carente e muitas vezes esfomeado, recorre à prática sexual remunerada como forma única ou complementar de subsistência. Cara e corpo razoáveis ajudam, mas não se pode negar que mesmo para os menos dotados, sem especializações, sem organizações de classe, tabelamentos de preços, etc., cidades como São Paulo e Rio dão possibilidades no mercado de trabalho sexual. Mesmo para o não homossexual, que por necessidade aceite esse trabalho temporário, as cidades grandes não negam ajuda, basta fazer o "trottoir" nos locais convecionados e a freguesia aparece.

No quadro das classificações homossexuais, o rapaz de aparência máscula e que pratica o "trottoir" de rua é chamado de "michê" ou "bofe". Ele não precisa obrigatoriamente cumprir a função do ativo, o que de certo modo limita a sua atividade sexual. Por isso os mais experientes preferem a postura contrária a fim de se poupar, podendo realizar mais de um compromisso sexual por noite. Mas isto de certo modo restringe o campo de trabalho dos afeminados porque, via de regra, os clientes preferem sodomizar rapazes másculos. Para subsistir então, o efeminado tenta outra faixa de clientela para a qual é necessário fazer-se mais feminino. E assim, paulatinamente, ele chega ao travestismo. É lógico que com isto ele também satisfaz o seu ego, dando vazão às solicitações femininas de sua personalidade, mas é errado pensar que o travestismo conduza à prostituição: são as exigências do mercado da prostituição que geram o travestismo.

Dificilmente se pode falar sobre travestismo, em termos da sociedade de hoje, que não seja ligando-o diretamente à prostituição, porque o fato é antes de mais nada econômico. Contam-se nos dedos as exceções, isto é, aqueles que atuam em shows, ou são maquiladores ou cabeleireiros, e que também adotaram o travestismo como forma de realização pessoal. Sendo o travesti-prostituto um sucedâneo da mulher-prostituta, ele pode realizar como passivo muitas atuações numa noite, assim como elas, apenas simulando o prazer. Mas existem casos, que são até comuns (e dizem os travestis que cada vez mais freqüentes), de clientes que os procuram exclusivamente para serem sodomizados. É um complicado jogo de consciência disputado com o complexo de machice em que subsiste a argumentação de estarem sendo possuídos por uma mulher...

Como o travestismo, ou mais especificamente, a prostituição praticada por travestis, é uma nova opção do prazer masculino da sociedade consumista e permissiva atual, estranhamente ele se criou e desenvolve-se por e para uma sociedade de raízes profundamente patriarcais e machistas. Nossos avós, que ficaram ricos na exploração do café em São Paulo, da borracha na Amazonas, da cana-de-açúcar no Estado do Rio e em Pernambuco, importaram amantes francesas (que era sinal de status e a elas cabia praticar todas as libidinagens que eram vetadas às esposas virtuosas, cuja função era ficar em casa procriando).

As mulheres contestadoras de hoje negam-se a continuar sendo apenas procriadoras ou objetos sexuais dos homens. Esta segunda função (já que a primeira lhes é impossível), está sendo encampada, sem restrições pelos travestis. Os praticantes sexuais acadêmicos poderão contestar que nada substitui a vagina num relacionamento sexual; porém, sem que eu tenha qualquer argumentação contra as mulheres, ao contrário, está provado que em matéria de prazer o homem heterossexual brasileiro, é tão obsecado por traseiros como é o norte-americano por seios volumosos. O hetero brasileiro pode não ter coragem de confessar, mas o depoimento das mulheres, constantemente assediadas nesse sentido, poderá contestá-los. a confirmação visual do fato está nas nossas revistas eróticas e nas que não se consideram como tal, mas em cujas fotos de carnaval só se vêem traseiros e mais traseiros. Tal é a exuberância deles que chega-se a pensar ufanisticamente num novo "milagre brasileiro".

E agora sejamos honestos: condicionamentos e preconceitos à parte, mesmo para um machão (mas quenão seja muito convicto em tradicionalismos) qual a diferença entre un ânus feminino e um masculino? (Darcy Penteado)"

Fonte: jornal Lampião da Esquina, nº 22, março de 1980, ano 2, pág. 12-13.

"O PAPEL DO TRAVESTI NA EMANCIPAÇÃO FEMININA", por DARCY PENTEADO

Abaixo, o texto de Darcy Penteado publicado em abril de 1980.
Ao final, confira a relação dos nomes daqueles que ajudaram a fazer o jornal Lampião da Esquina - Conselho Editorial, Colaboradores e Correspondentes.


"A conscientização e conseqüente reivindicação dos direitos da mulher está aos poucos, mesmo se lentamente, modificando a estrutura patriarcal que vigorou até agora e que sempre deu ao macho a preponderância no sistema social, coisa essa já muito sabbida e muito falada. Mas isto nos permite entre outras coisas, prever paara o futuro (sabe-se lá quando?), uma formação socio-familiar (ou algo que venha a corresponder a ela), dividida em duas facções: uma, que se poderá considerar como integrante de uma sociedade ideal, em que o ser humano, não importando o sexo civil mas a sua preferência sexual, enconntrará a sua forma de viver coletivamente, na ligação com o outro (ou outros), para juntos desfrutarem os prazeres dos próprios corpos, liberados dos interesses de procriação e da conseqüente manutenção da espécie. da mesma forma estarão colocados de lado os interesses econômicos que se aproveitam dos sentimentos e das atrações sexuais para impor a sua oficialização quase irreversível, como o casamento, que tem como conseqüência a priori, estabelecida, a prepotência do mais forte, e a obediência e dependência do mais fraco, que via de regra é a mulher. Já se pode prever também, nessa sociedade ideal, que a procriação será planejada, pelos que assim a desejarem e totalmente subvencionada e mantida pelo Estado, principal interessado nela.

Haverá porém, como sempre acontece, uma segunda facção composta de reacionários sexuais, dotados de mentalidade nostálgica e acadêmica: os herdeiros culturais da sociedade machista atual. A estes restarão bem poucas alternativas: primeiro porque o conceito de pecado, do sexo proibido que tanto tem sido incentivado pela cultura judaico-cristã, estará exaurido ou caduco; segundo porque a mulher-objeto (forma humana receptadora do falo e do esperma, aquela que tem sido apenas o veículo do prazer masculino; ou ainda a procriação por obrigação), será substituída pela mulher conscientizada do seu prazer do uso do próprio corpo.

Qual então o saldo que nessa sociedade futura irá satisfazer sexualmente o machão tradicionalista? Ora! não se mostrem cegos e ignorantes perante o óbvio: é claro que o travesti! Porque este (como foi citado no artigo anterior) não reivindica mais que isto: ser mulher-objeto. No caso, o fator econômico que faz atualmente do travestismo uma profissão sexual (conforme também já foi dito, quem não leu que procure o número anterior do Lampião, será de pouca importância porque, nos termos dessa tal sociedade ideal a prostituição, seja masculina ou feminina, não mais existirá pela sua razão econômica e sim, apenas, pela socilitação do ego de cada um, desde que a sua empestação psíquica exija esse tipo particular de sexualidade, que é a de submissão ao macho.

Portanto, nesse mundo futuro, felizmente despojado da nossa escala de valores morais (prepotente mas também servil, falsa, inepta, dependente, preconceituosa, penitente, recheada de complexos de culpa, etc., etc.), as pessoas curtirão em plenitude a própria sexualidade, fazendo dela a base para a sua individualidade e, consequentemente, a estrutura para a sua formação e atuação social e política. Porém... surgirá dentro dela (sociedade do futuro) um quadro bizarro: uma facção tradicionalista procurando ainda alimentar os valores machistas de antanho. Serão os saudosistas sexuais da mulher objeto e que, por força das circunstâncias, irão servir-se para tal fim... dos travestis.

Assim sendo, o travesti-prostituto que hoje é objeto de escárnio da sociedade tradicional, aquele que provvoca rubores entre os bem acomodados, que é saco de pancada de polícia, lavador de latrina de xadrez, a Geni em quem os bofes jogam bosta (depois de a comerem ou de terem sido comidos por ela), estarão para o futuro como um resquício da feminilidade falocrática quase desaparecida, mas ainda cultivada por um grupo de nostálgicos sexuais.

Entenda-se que a mentalidade da mulher-objeto poderá permanecer, mesmo numa sociedade conscientizada. Porém aparecerá como excessão, como uma das muitas formas de livre expressão que, espera-se, irão existir no mundo futuro - assim como aqueles homossexuais, também falocratas, que ainda acreditarão na função ativo-passivo. Idem, idem, continuará existindo uma conceituação sexual hoje confundida com a prostituição feminina, que a sociedade machista considera uma doença, denominando-a discriminatoriamente de furor uterino, e que na verdade é uma mera necessidade de exacerbação sexual, o que nos homens ganha a força de um atributo: garanhice.

A verdade é que, mesmo aos tropeções caminhamos (ou caminharemos para uma comunidade que por tentar ser a ideal, não escapa de parecer utópica. Mas vamos manter a esperança, pelo menos em pensamento, de que nela todos os direitoos serão igualmente cumpridos e respeitados: usaremos a nossa mente e o nosso corpo ao prazer da nossa própria responsabilidade e na mesma proporção em que respeitaremos a integridade allheia. Dessa Shangri-Lá poderemos exigir e obter tudo.

E obtido isto, ninguém vai segurá-los, podem crer! É fato conhecido através da história que as amantes dos reis, dos governantes, dos senhores do mundo, tiveram atuações políticas, muitas vezes, bastante mais importantes que as esposas legítimas. A conjuntura sexual sentimental que fez com que as Dianas de Poitiers, Pompadours ou Domitilas tivessem mais acesso ao poder que as esposas, não deve ser nenhum enigma para os travestis. Assim é que no futuro já falado (se desgraçadamente ainda forem necessários governos) em vez das tradicionais cocotas teremos travestis agindo nos bastidores do sistema. Mas isto será da alçada dos futuros senhores do mundo, não da minha. (Darcy Penteado)" - Destaques, grafia e pontuação do original.

Fonte: jornal Lampião da Esquina, nº 23, abril de 1980, pág. 3, ano 2.
Conselho Editorial - Adão Acosta, Aguinaldo Silva, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Darcy Penteado, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, Jean Claude Bernadet, João Silvério Trevisan e Peter Fry.

Colaboradores - Agildo Guimarães, Frederico Jorge Dantas, Alceste Pinheiro, Paulo Sérgio Pestana, José Fernando Bastos, Rubem Confete, Henrique Neiva, Leila Míccolis, Luiz Carlos Lacerda, Mirna Grzich, João Carneiro, João Carlos Rodrigues e Aristóteles Rodrigues (Rio); José Pires Barroso Filho, Carlos Alberot Miranda (Niterói); Marisa, Edward MacRae (Campinas); Glauco Matoso, Celso Curi, Edélcio Mostaço, Paulo Augusto, Cynthia Sarti, Francisco Fukushima (São Paulo); Eduardo Dantas (Campo Grande); Amylton Almeida (Vitória); Zé Albuquerque (Recife); Luiz Mott (Salvador); Gilmar de Carvalho (Fortaleza); Alexandre Ribondi (Brasília); Políbio Alves (João Pessoa); Franklin Jorge (Natal); Paulo Hecker Filho (Porto Alegre); Wilson Bueno (Curitiba); Edvaldo Ribeiro de Oliveira (Jacareí).

Correspondentes - Fran Tornabene (San Francisco); Allen Young (Nova York); Armando de Fulviá (Barcelona); Ricardo e Hector (Madrid); Addy (Londres); Celestino (Paris), Anton Leicht e Nestor Perkal (Frankfurt).

As recordistas de público