sexta-feira, 11 de junho de 2010

"OS PROSTITUTOS TRAVESTIS DA LAPA" (RJ)

"Considerem-se a marginalidade, o desemprego, a homossexualidade, o transvestitismo (sic), a prostituição, a deterioração do próprio bairro e, então, esse personagem, esses personagens, tal coletividade: os prostitutos travestis da Lapa [RJ] adquirem a densidade jamais suposta pelo senso comum. Monas: mulheres de brinquedo.

Há uma expressão frequente entre travestis da Lapa para designar o cúmulo do negativo: o ó. Como diz Brenda:

'Mona, eu não aguento mais. É o ó, mona. Esses homens suados, fedorentos, em cima da gente. Eu queria arranjar um emprego, mona. Deixo a barba crescer, corto o cabelo... faço qualquer coisa'.

Quando se lembra que não deve ter ilusões (será objeto de chacota, risadinhas, 'olha a bicha' etc.), ela revela ter consciência disso, mas preferiria. Seria melhor que aquela vida, ali.

Viena também. Seu orgulho mal se contém quando conta que está empregada. Sobretudo porque seu trabalho não agride sua condição (sua trans-condição), já que o dono da empresa foi travesti e ali sua ocupação é a de bordar, costurar, reformar e fazer roupas 'finas' (para casamentos, cerimônias etc.).

Uma noite de domingo, conversando na sinuca da rua do Riachuelo, Leila confessa em seu carregado sotaque pernambucano que tem nojo do homem depois que 'transam'. Declara em meio a caretas e múltiplos gestos irritados.

Ambiguidade de situação que faz pendant com a ambiguidade da condição. O clima de convivência com o travesti configura um processo de interação que o dotará de existência social. Não significa aceitação, significa processo social tenso, contraditório e ambíguo, que fatalmente, pelas relações estabelecidas e pelas redes criadas, tornará o travesti aceito por certas áreas, camadas, grupos sociais.

Mas isso não impede que Lua seja assassinada com 16 tiros e enterrada como indigente em Campo Grande [RJ], notícia que recebo após a defesa da dissertação, no dia 31 de março de 1992.

Isso não impede que por volta de seis da manhã alguém chame Sandra, na vila onde morava na rua do Lavradio [Lapa, RJ], e a receba com dois tiros na cabeça. Ninguém tem a menor idéia de quem matou Sandra, mas sabe-se perfeitamente qual foi o ex-policial que disparou contra Lua, que praticava pequenos furtos, comia e não pagava.

Na noite de 13 de julho de 1992, uma segunda-feira, Emília me conta outro assassinato 'por causa de vinte mil cruzeiros'.

Meados do ano 1991. Leila sumiu da Lapa. Durante cerca de um mês ficou reclusa, empenhada em abandonar a calçada e só atender por telefone.

Pode-se fazer uma leitura moralista dos registros acima. Será fácil, para quem o queira, avistar em tais declarações a precariedade do papel assumido, os impasses de uma condição ou o bom arrependimento a coroar uma vida de 'erros'.

Ao contrário de tal postura, percebe-se aqui, no momento histórico em que vivem os travestis (com a retração progressiva da rejeição social que aqui e ali aflora violenta, porque desesperada), a insatisfação contra as derradeiras limitações. Pela voz de vários, o que se pede é poder estudar, poder trabalhar, ter moradia digna, ter uma profissão, sem abrir mão de sua transcondição.

As relações entre o domínio da psicologia e o da sociologia, ou as fronteiras entre o território social e o âmbito psicológico constituem questões relevantes e problemáticas para o desenvolvimento de inúmeros temas e áreas nas ciências humanas. Mas são poucos os temas ou questões em que tal delimitação emerge como um problema tão crucial quanto no caso do estudo do universo dos travestis.

Tal psicologização confina o travesti ao árido território da patologia quando os 'bem-pensantes' e a 'sociedade moral' dele se ocupam. Ou delata-o como inconsequente palhaço a erodir a respeitabilidade do mundo heterossexual quando quem se ocupa dele é o homossexual de auto-representação masculina."

Extraído de SILVA, HÉLIO R. S. Travesti - A Invenção do Feminino. Etnografia. RJ: Relume-Dumará/Iser, 1993, págs. 120-122.

Um comentário:

Cesar Gil disse...

A linguagem elaborada utilizada parece "soar convincente" na defesa do travestismo e a marginalidade. Qualquer posição em contrário é chamada de "moralismo". O que é o equilibrado então? Que se cometa como foi mencionado no próprio texto pequenos furtos, coma e não pague, etc? Ora me poupe.