sábado, 25 de junho de 2011

28 de junho: Dia da Dignidade LGBT - 42 anos da Rebelião de Stonewall

Estamos às portas da comemoração do Dia do Orgulho LGBT, em 28 de junho. Hoje, em São Paulo, será realizada a Parada Lésbica. Amanhã, a Parada Gay. Este ano comemora-se os 42 anos do Levante de Stonewall. E 41 da primeira Parada do Orgulho.

Mas, afinal, o que significa isso?
Trata-se dos acontecimentos havidos no bar de ambiente (gay) chamado Stonewall Inn, situado no Village, Nova Iorque, EUA, iniciados na noite de 27 e madrugada de 28 de junho de 1969. Ali, lésbicas, travestis, locas, drag queens e gays reagiram a mais uma investida violenta da polícia corrupta novaiorquina. 
Originou-se, assim, além da sucessão de eventos de resistência que durou até o dia 02 de julho e envolveu aproximadamente 2.000 pessoas LGBTTs e 400 policiais, um novo divisor no movimento homossexual - o Gay Power, Gay Lib e as Paradas do Orgulho Gay. De uma tônica conservadora e em busca de assimilação, para uma visão e agenda crítica, radical, afirmativa, reivindicatória.
O contexto sociocultural e político que propiciou a Rebelião de Stonewall era formado pela contracultura (influência da geração beat), lutas pacifistas (contra a guerra do Vietnã) e pelos direitos civis dos negros estadunidenses.

Segundo Alessandro Soares da Silva, o Stonewall Inn era um bar "brega, sem sequer água corrente ... Na entrada havia que se assinar o nome (ou qualquer nome), já que tecnicamente, se tratava de um clube privado.  A clientela era uma mescla de jovens yeyeyê de calças boca-de-sino, algumas loucas [locas] e, de vez em quando, alguns hippies e lésbicas." 

Tal como muitos outros espaços de lazer e socialização "homossexual", Stonewall Inn era submetido à extorsão, por parte da polícia corrupta novaiorquina, da quantia de dois mil dólares semanais, para que avisassem antecipadamente onde e quando seriam realizadas as batidas policiais, de modo a proteger os clientes (SILVA, Alessandro Soares da. Luta, Resistência e Cidadania: uma análise psicopolítica dos movimentos e paradas do Orgulho LGBT, 2008).
 
Conforme a versão mais aceita, após já terem sido realizadas diversas prisões, com os policiais no interior do bar, uma lésbica teria sido agredida na cabeça por um policial. Imobilizada por eles, ela passara a conclamar, aos gritos, os outros detidos, já dentro da viatura, para que rompessem com a passividade com que costumeiramente se submetiam àquelas violências. 
Em pouco tempo se iniciou a rebelião. A polícia foi cercada. Uma travesti gritava "'Já lhes deram dinheiro, mas aqui tem um pouco mais!'". E a multidão em volta lhe faz coro, atirando mais moedas. Uma viatura consegue furar o bloqueio e sair com os detidos. Alguem remove do chão um parquímetro e o utiliza para escorar a porta do bar, deixando outros policiais encurralados lá dentro. A fúria seguiu aumentando. Parquímetro, pedras, tijolos, fogo nos containers de lixo, tudo o que encontravam à mão era utilizado no enfrentamento. A polícia, por seu lado, usava jatos d'água, cassetetes e balas. Somente às quatro horas da madrugada houve uma provisória calma. Nas noites seguintes até dois de julho, entretanto, novos enfrentamentos se verificariam.
A coragem e a determinação dessas pessoas lhes fizeram ver o seu poder para transformar a realidade a que estavam submetidos. Tornaram-se mais autoconfiantes, menos passivos. Mais participantes e comprometidos com os assuntos que envolviam a sua comunidade.

Um ano depois, cerca de dez mil "homossexuais" (lésbicas, locas, drag queens, travestis, gays), vindos de todos os cantos dos EUA, comemoraram aquela rebelião numa passeata (marcha) pelas ruas do Greenwich Village. O dia 28 de junho torna-se, assim, o Dia do Orgulho Homossexual ou LGBT.

Antes desses acontecimentos inaugurais à uma nova dinâmica ao movimento "homossexual" estadunidense, as pessoas LGBTs naquele país dispunham de inúmeras entidades de luta e prestação de serviços específicos a esse público. Embora não tivessem ousado afirmar-se publicamente de maneira tão ostensiva, constituíam aquilo que pode-se definir como uma comunidade - ou seja, o sentimento de pertença e de algum compromisso coletivo.

Possuíam visões assimilacionistas e conservadoras - vendo-se a si mesmos a partir das definições que a sociedade heterossexual lhes ofereciam, ou seja, como portadores de um "desvio" -, amoldando-se aos seus dogmas, valores e hábitos; buscando serem integrados à sociedade, sem transformá-la. Buscavam o lazer e a prestação de determinados serviços - sobretudo os de socialização. O enfrentamento, a exposição pessoal (visibilidade), porém, não faziam parte dessa agenda. 

Embora esse fosse o traço preponderante do movimento "homossexual" estadunidense até junho de 1969, a história registra ações de protesto e reivindicações anteriores a Stonewall: 1964, em Nova Iorque e 1965, em Washington (Silva, 2008: 138). Ainda que episódicas e pontuais, tais iniciativas documentam a existência de pontos de vista divergentes; de indivíduos que não estavam satisfeitos nem com os modos de ação até então empreendidas, nem com o modo de ver as "homossexualidades" (travestis, transexuais, drag queens, lésbicas, gays) - integrando e reproduzindo a perspectiva patológica, então vigente no interior da medicina, psiquiatria e psicologia.

A força política condensada através daquelas noites e madrugadas de enfrentamento e resistência vai levar ao surgimento de inúmeras novas entidades em defesa dos interesses das pessoas LGBTs. 

O diferencial será a perspectiva através da qual se posicionam: um discurso radicalmente afirmativo, contrário à discriminação e à invisibilidade, construído em torno da ideia de identidade e diferença.  

A Rebelião de Stonewall permitiu àqueles indivíduos a experiência do sentimento de dignidade própria, da possibilidade concreta de ações transformadoras. A ruptura com a aceitação da posição de párias, de abjetos a que haviram sido historicamente submetidos. A possibilidade de construirem uma outra realidade para as suas vidas - suas e daqueles que viessem.

Essa luta por dignidade, por não discriminação, se espalhou pelo mundo e ainda não terminou. Nos Estados Unidos, passou por diversas fases, com avanços e retrocessos. A determinação na ação política, com participação, consciência coletiva e histórica, tem se mantido. 
Trata-se de uma nação que culturalmente possui a participação comunitária como um de seus traços integrantes. Isso sem dúvida tornou menos árida a construção da base de apoio necessária para as ações de enfrentamento e reivindicação. Mas, tampouco lá foi ou é fácil. Sempre demandou muita determinação, comprometimento e, sobretudo, uma visão horizontalizada. 

Em outras palavras, a percepção de que o movimento pertence a todos os indivíduos indistintamente. Não se trata de um produto, uma mercadoria. Mas da construção coletiva e sempre ampliada, integrativa, de formas de viver social e politicamente mais dignas, respeitosas.

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