sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Trans: a importância de seu movimento e sua visibilidade

29/1 - Dia Nacional da Visibilidade Trans

"A emergência do movimento trans no Brasil contribuiu para que essas repre-sentações estereo-tipadas das experiências travestis se modificassem"

“Sr. Editor: Depois que a Polícia Militar do Ceará colocou nas ruas centrais de Fortaleza (...) a cavalaria e os cães amestrados, diminuiu bastante o número de roubos, assaltos a mão armada, saques e incêndios nas lojas, praticados pelos mirins e travestis, não somente portadores do defeito moral da pederastia, mas finíssimos ladrões. E a prova de que os travestis são periculosos à sociedade é que os mesmos ficam diariamente na rua Duque de Caxias com Senador Pompeu e também na Praça do Ferreira, em grande grupo, assaltando pessoas indefesas”. (O POVO, Fortaleza, 16 de janeiro de 1990)

A carta de Eduardo Carlos, reproduzida acima, foi publicada nesse jornal há mais de duas décadas. De certo modo, ela traduz e compõe os discursos produzidos sobre o sujeito travesti naquele período. Não restavam dúvidas àquele leitor: “os” travestis eram “periculosos à sociedade”, “portadores do defeito moral da pederastia, mas finíssimos ladrões”.

Vinte anos depois da publicação da carta de Eduardo Carlos, inspirado pelas comemorações no Brasil do Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado anualmente no dia 29 de janeiro, convido o leitor e a leitora à seguinte reflexão: quantos de nós continuamos a olhar – quando não invisibilizamos completamente – a experiência travesti como sendo marcada unicamente pela prostituição, crimes e/ou aids?

A emergência do movimento trans no Brasil – anos 90 do século XX – certamente contribuiu para que essas representações limitadoras e estereotipadas das experiências travestis se modificassem, na medida em que possibilitou a ocupação de outros lugares políticos pelas próprias travestis e a produção de outros discursos sobre as travestilidades.

A instituição, em 2004, pelo Congresso Nacional, do dia como dia nacional da visibilidade trans pode ser considerada um desdobramento desse contexto histórico de lutas e de reivindicações. As travestis dizem: “olhe e veja além do preconceito”. Dizem, ainda: “sou travesti: tenho direito de ser quem eu sou”. E nós, o que dizemos? O que fazemos?

Para além das lutas político-institucionais, a luta das travestis acontece cotidianamente. Seja pelo reconhecimento da sua identidade de gênero feminina, seja pelo reconhecimento do nome social – a incoerência entre o nome masculino estampado nos documentos oficiais e a subjetividade feminina, marcada no corpo das travestis, não é motivo apenas de constrangimentos, mas de violências – seja pela garantia dos direitos básicos, como educação, saúde, trabalho e cultura. A luta das travestis não é uma luta de todos e de todas nós que acreditamos num mundo mais justo e igualitário?

Elias Ferreira Veras

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