terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Janaína Dutra e sua Família maravilhosa

Estava devendo a mim mesma um texto comentando o documentário Janaína, Uma dama de ferro, o mais recente de Vagner de Almeida, documentarista que, com empenho e talento, vem conseguindo constituir obra capaz de auxiliar no conhecimento dos protagonismos de atores sociais desse segmento populacional historicamente tão estigmatizado - @s LGBTTs. E, com isso, colabora igualmente no processo de recuperação e divulgação da história social desse segmento, ao documentar suas vidas, resistências, inventividades, trajetórias e percepção crítica. Via de conseqüência, colabora, também, na recuperação de sua autoestima, deteriorada por força de vivência sob intensos processos de estigmatização.

Vagner tem sido bastante feliz ao poder ter acesso tanto aos atores ainda vivos, como à rede de relações daqueles que já faleceram e cuja trajetória de vida ele cuida de documentar. Pesquisadores, etnógrafos e documentaristas sabem bem as dificuldades de ir a campo e conseguir ter acesso aos seus informantes. Mais do que ter acesso, conseguir que falem, que realizem o trabalho da memória, recuperando suas lembranças de forma sincera e confiante. Só aí temos enorme riqueza no produto final do seu trabalho.

Nesse trabalho sobre Janaína Dutra, Vagner foi, mais uma vez, muito competente. Ao mesclar os depoimentos de seus familiares, amigos e colaboradores com os da própria Janaína, a montagem final nos permite compreender bem o universo social (familiar e político) daquela que foi a militante travesti que colocou o seu saber profissional de advogada à serviço da luta pelos Direitos Humanos de pessoas que, por conta de sua orientação sexual e identidade de gênero, (ainda) são alvo de processos de desqualificação e estigmatização intensos e violentos.

É admirável, por exemplo, poder ter acesso à sua família para aprender como um núcleo de proteção primária, embora simples e do interior do Brasil (São Francisco do Canindé, Ceará), foi capaz de ter a sabedoria afetiva de não lhe negar o amor e a pertença – como vimos ainda hoje em tantos núcleos familiares. Muito ao contrário. Seus familiares foram (e são) capazes de se relacionar com o mais profundo de Jaime/Janaína. Relacionam-se e ostentam vínculos de afetividade e mesmo gratidão, pelo caráter daquele que, mais do que parente, espelhando os valores recebidos, brindou a todos com o mesmo afeto, cuidado e reconhecimento recebidos. Para os sobrinhos que ajudou a criar, independente do gênero e da orientação sexual, Jaime/Janaína é a grande referência moral e afetiva. Através dele, do seu caráter e práticas, seus sobrinhos puderam aprender os valores humanos da ética, solidariedade, dignidade e fraternidade.

Janaína possuía plena consciência do poder inerente ao reconhecimento familiar na estruturação da subjetividade pessoal, como já destacado pela socióloga Cristina Câmara, em seus comentários sobre o filme. Poucas pessoas submetidas a esses processos de abjeção tiveram/tem a ventura de se encontrar no interior de um núcleo familiar dotado de tanto amor cristão (no sentido dos seus valores originais de fraternidade, solidariedade, amor), provedor dos indispensáveis mecanismos de proteção social. A fala de Janaína, curta, simples, é lapidar: “O apoio familiar te empodera na sociedade”.

E isso nos foi possível conhecer através de mais este belíssimo e importante trabalho realizado por Vagner de Almeida e sua equipe. Parabéns a todos e todas que contribuíram na realização de mais este projeto do Vagner. Parabéns sobretudo para a família de Janaína, tão saudável e cristã!

Um dos últimos textos escrito por Janaina Dutra para o seminário realizado pela ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, publicado em 2004.
“ A relação conflituosa e preconceituosa do homem moderno com a homossexualidade tem como pilar as três instituições que fundamentam a nossa sociedade: o Estado, a Igreja e a Família. Um bom exemplo da dificuldade de diálogo com o Estado pode ser encontrado na própria Constituição Brasileira, em seu artigo 5º, que versa sobre as garantias e direitos individuais.  O artigo afirma que todos somos iguais perante a lei, sem nenhum tipo de discriminação de cor, sexo e credo religioso, no entanto, quando analisamos as relações sociais notamos uma distinção na classificação dos cidadãos. Todos os que fogem do padrão heterossexista dessa sociedade, que tem como elemento legítimo o homem, de pele branca, com uma boa conta bancária, sofrem algum tipo de discriminação”.
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O artigo a que Janaína se refere diz:

Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
III - Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;
 Ainda hoje, 2012, passados 24 anos de sua promulgação, o Congresso Nacional ainda não foi capaz de regulamentar esse dispositivo constitucional. O Projeto de Lei Complementar nº 122/2006, na redação que lhe deu a ex-senadora Fátima Cleide, permanece alvo dos ataques de seus opositores - a bancada da "Frente Parlamentar Evangélica". Para maiores informações sobre o projeto e sua tramitação, veja aqui.

2 comentários:

Roberto disse...

Boa tarde, Rita queria te parabenizar pelo artigo. Conhecia Janaína, participei de oficinas, palestras e do convívio social com ela.Uma militante acima de tudo !Só quero te esclarecer, ou informar que ela é natural de Canindé e não São Francisco de Canindé ( São Francisco é apenas o 'santo" que é ícone religioso da cidade) como está escrito no seu artigo. acesse; http://www.ceara.gov.br/municipios-cearenses/782-municipios-com-a-letra-c#munic-pio-canind

Rita Colaço Brasil disse...

Super agradecida, Roberto! Valeu mesmo! ;)
Se tiver interesse em compor um depoimento sobre Janaína, eu ficaria muito contente em que contribuísse com o acervo deste blog.
Grata