segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A permanência do complexo de Vira-lata

Ontem, mais uma vez, parcela significante da população brasileira se deixou mobilizar pela premiação do Oscar - o maior tributo outorgado pela indústria cinematográfica estadunidense. 

Fazendo jus ao extremado interesse que lhe dedica boa parte do povo, nele incluído seus intelectuais  (embora estes gostem de manter-se ao longe dessa imprecisa e excludente categoria), emisoras de televisão não poupam tempo e espaço na divulgação desse evento - o mesmo não ocorrendo em outras premiações, como por exemplo, o nosso Kikito, outorgado pelo Festival de Gramado, ou o Palma de Ouro (Cannes), o Leão de Ouro (Veneza) ou o Urso de Prata, do Festival de Berlim.

Uma vez mais, à semelhança de todas as outras vezes em que algum filme brasileiro esteve na disputa, cidadãos comuns e outros tidos e percebidos como nem tanto - principalmente aqueles e aquelas envolvidos na realização do produto - demonstraram o quanto outorgam validez à recepção e buscam legitimação por parte da cultura da metrópole - no caso, a estadunidense.

Recordo do grupo Teatro de Abertura Lúdica (TAL), de Duque de Caxias que, em 1979 recusou-se a receber o Molière, distinguido na Categoria Especial, pela montagem do Sacos e Canudos, de David de Medeiros, que abordava com irreverência a tragicomédia da vida na região.

Diz a página da Câmara Municipal de Duque de Caxias que Cid Moreira, então a voz e a face do Jornal Nacional, anunciou:

"O prêmio Moliére, na categoria especial, vai para Duque de Caxias, com a peça Saco de Canudos" (sic).
 Ainda o  mesmo texto procura transmitir a importância de tal distinção:
Para se ter uma idéia desta conquista, também foram contemplados, no mesmo ano, Fernanda Montenegro (melhor atriz) e José Wilker (melhor ator).

Como tivesse se recusado a recebê-la, sobre o grupo se abateu o ostracismo. Mesmo banido das luzes legitimadoras, em 1979 apresentou-se no chamado circuito alternativo, chegando depois ao Teatro Glauce Rocha. Entre resistências da maioria dos críticos, acostumados a espetáculos da-pela-e-para a classe média, o grupo teve seu talento outra vez destacado:

É uma das poucas coisas vivas a ocupar um palco carioca este ano. [...] O diretor, José Carlos de Souza, e os atores podem ter certeza de que caminham na direção certa: é baseado no nosso cotidiano, mas superando-o criticamente que alcançaremos a forma de uma arte brasileira autêntica, que como tudo, terá de vir de baixo para cima – e não ao contrário.
O Grupo T.A.L. reafirma-se então como o equivalente suburbano do Asdrúbal Trouxe o Trombone, que faz na Zona Sul um trabalho com a mesma proposta: a crítica debochada a partir de um cotidiano amargo. Aliás, o T.A.L. e o Asdrúbal estão entre o que de melhor se faz no teatro carioca, ao lado do ballet afro Olorum Baba Min de Isaura de Assis e o teatro nordestino de Luiz Mendonça. O fato desses grupos, com exceção do Asdrúbal, raramente constarem da lista de melhores dos nossos jornalistas especializados, é um defeito destes, e não daqueles (Rodrigues, 1979, 16)
Dentre os integrantes do Grupo TAL, foi possível encontrar registro sobre

Paulo Renato - que, na década de 1960, estudou no Colégio Adventista Caxiense, onde participou da montagem da peça O Noviço de Martins Pena, sob a direção de seu professor de teatro, Ediélio Mendonça, com quem trabalhou de forma intensa por aproximadamente vinte anos. Paulo Renato participou da fundação do Grupo TAL e atuou com ele de 1976 a 1977, no Teatro Municipal Armando Mello, em Duque de Caxias, com a peça Sacos & Canudos, distinguida com o Molière. 




 Ediélio Mendonça - Ator, diretor, figurinista, e professor da rede municipal de ensino; professor de Literatura Dramática, História das Artes Cênicas e História do Teatro Brasileiro. Em 1983 assume a direção do Teatro Procópio Ferreira, da Câmara de Vereadores de Duque de Caxias, com 450 lugares. Promove cursos de teatro e projetos visando a formação de platéias, além de espetáculos de dança, múdica e peças teatrais. 
 Em 2009 organizou o Primeiro Painel Cultural da Baixada, com o tema Do século XX aos dias de hoje.


Eve Penha -  Atriz. Graduada em Pedagogia em 1991 pela UERJ.








Nota:
Rodrigues afirma que o texto Sacos e Canudos foi fruto de criação coletiva e data de 1976 a premiação com o Molière (Rodrigues, 1979, 16). No entanto, parece mais abalizada a informação conforme descrita acima, uma vez que de autoria de um dos integrantes do Grupo, Ediélio Mendonça. Ver: Mendonça, http:// www.ipahb.com.br/cultura.php (acesso em 2006).

Referência:

RODRIGUES, João Carlos. O teatro vivo de Caxias. In: Jornal Lampião da Esquina. Rio de Janeiro: Esquina, 1979, ano 2, nº 16, p. 16.

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