terça-feira, 20 de março de 2012

Nem sempre a Igreja Católica condenou a homossexualidade

A dificuldade em lidar com a sexualidade remonta a cultura hebraica, sistematizada no Velho Testamento. No cristianismo, tributário do judaísmo, ela é construída como pecado ou, na melhor das hipóteses, um mal necessário à contenção do desejo e à perpetuação da espécie. 

É no contexto dessa dificuldade judaico-cristã perante o prazer erótico que as práticas homossexuais são representadas de forma desqualificada. Em outras culturas, entretanto, encontravam-se completamente integradas à vida social; simples e legítimo exercício do prazer; algo da mesma ordem que a gastronomia, as artes ou o erotismo heterossexual. 

Com a ascensão do catolicismo como religião oficial do Império Romano a chamada sodomia masculina passa a ser condenada. As políticas persecutórias, no entanto, jamais se verificaram de forma contínua. Ao contrário, desenvolvem-se em ondas. 

A primeira se dá em fins do século IV e entre 527–65, quando, em 533, o Imperador Justiniano sanciona com a pena de morte. A segunda se dá em fins do século XII e por todo o século XIII. O contexto era de fome e peste intensas, comprometendo a viabilidade demográfica dos povos. A Igreja se sentia ameaçada em seu prestígio, diante da proliferação de movimentos ascéticos e do descrédito do clero frente à população em razão de práticas intensivas de simonia e sexo, levando o Clero a reagir para consolidar o poder político Católico. 

Entre o século VI e o século XII, a sodomia masculina era presença cultural marcante em diversas cidades da Alemanha, Itália, Normandia e Inglaterra. Em Veneza, eram visíveis em todos os setores da sociedade, sem exceção, principalmente no interior do clero. Tratava-se de aspecto tão disseminado a ponto de produzir subcultura peculiar e vigorosa, presente em todos os espaços públicos. 

Pesquisas realizadas pelo historiador John Boswell vão mais além: apontam que na Alta Idade Média havia mesmo um reconhecimento da homossexualidade, em razão de certos ritos reconhecidos pela Igreja. Entre 400 a.C. e 400 d.C. o pesquisador documenta quatro tipos de relações homossexuais. Também traz exemplos que documentam a existência de relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo perfeitamente reconhecidas pela sociedade. As formas de conjugalidade e sua dissolução, nos ensina, são referidas da mesma forma, independentemente de se referir a pessoas do mesmo ou de outro sexo.

Outros historiadores consagrados nacional e internacionalmente nos demonstram que mesmo nos períodos de forte repressão católica, a aplicação das penalidades jamais se deu de forma inflexível. Ao contrário, sempre esteve condicionada as peculiaridades locais, socioeconômicas, políticas e pessoais. 

Portanto, como a história comprova, a desqualificação e a perseguição às manifestações eróticas entre pessoas do mesmo sexo, como todas as manifestações sociais, são produto das múltiplas forças em interação em cada contexto específico. Como expressões históricas, devem sempre ser examinados os contextos a que servem.

Referências:
ARIÈS, Philippe e BÉJIN, André (orgs.). Sexualidades Ocidentais. 3ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1987.
BOSWELL, John. Lês unions Du même sexe. Dans l’Europe antique et médiévale. Paris : Fayard, 1996.
DOVER, K, J. A homossexualidade na Grécia antiga. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
MOTT, Luiz. Pagode português: a subculturagay em Portugal nos tempos inquisitoriais. Ciência e Cultura, fevereiro, 1988, 40(2) 120-139.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: Corpo e Gênero dos Gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
VAINFAS, Ronaldo. Casamento, Amor e Desejo no Ocidente Cristão. São Paulo: Ática, 1992.
VIÑUALES, Olga. Identidades lésbicas. Barcelona: Bellaterra, 2000.

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