terça-feira, 17 de maio de 2016

Freud e Lacan e o Dia Mundial de Combate à Homo, les, e transfobia

Logo da ONU
Quando, em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde reconheceu finalmente que a homossexualidade é simples manifestação da sexualidade, tão natural e legítima como a hetero e a bissexualidade, nada mais fez do que restabelecer o primado científico, estabelecido por Freud em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

A partir de 1921, como nos dias que correm, esse entendimento passou a ser alvo de extrema reação e intolerância, por parte da ala reacionária da psicanálise. Abriu-se um forte divisionismo no interior do órgão dirigente da International Psychoanalytical Association (IPA) - o seu Comitê Secreto.

Ali disputavam o convencimento os grupos de Viena e o de Berlim. Enquanto os defensores da linha científica (grupo de Viena, Otto Rank à frente) defendiam a igualdade entre homo, bi e heterossexualidade, o Grupo de Berlim insistia no reforço de visões desqualificatórias e segregacionistas.

Entre os mais agressivos estavam Karl Abraham e Ernest Jones, que defendiam que homossexuais eram incapazes do exercício profissional da psicanálise. Ernest Jones, preocupado com o prestígio seu e da sua profissão, sustentava que, como a sua prática era considerada crime na Alemanha, caso algum dos membros da IPA viesse a ser acusado, isso atrairia grande descrédito para todos os membros da instituição.

A grande pressão corporativa realizada por Ernest Jones conseguiu convencer todo o grupo berlinense, terminando por projetar esse entendimento sobre toda a International Psychoanalytical Association, que passou então a afastar-se definitivamente da visão freudiana, implantando mecanismos e atitudes estigmatizantes e repressivas sobre homossexuais e a homossexualidade.

Somente com Lacan, na metade do Século XX, é que tem início outra vez o processo integrador, voltando-se novamente a questionar e a demonstrar a desrazão dessas visões reacionárias e desqualificatórias.

Foram necessários muitos anos e muita luta, uma vez mais com a participação dos ativistas, para que a visão de Freud fosse restabelecida.

Embora isso e todas as iniciativas das entidades de Direitos humanos da Organização das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos, no sentido de garantir a efetividade dos direitos fundamentais de travestis, transexuais, lésbicas, gays e intersexos, ainda hoje a realidade de suas vidas é marcada pela violência psicológica e física, sendo diariamente alvos de bullying, assédio moral e sexual, não raro levando ao suicídio e ao assassinato (quase sempre precedido de extremo requinte na crueldade).

Campanha da ATEA
Esses processos desqualificatórios, inferiorizantes e violentos, com frequência se iniciam no interior dos próprios lares, por iniciativa dos familiares, precisamente aqueles a quem cabe o dever de amar, zelar, apoiar, proteger, insuflados por pregações e militâncias de grupos reacionários religiosos ou que se aproveitam de religiões para por em operação o ódio que carregam dentro de si.


REFERÊNCIAS:

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de Psicanálise (1998, em co-autoria com Michel Plon.

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